Por que o calor no Japão é tão intenso? Entenda as causas, os recordes históricos e os riscos à saúde

Descubra por que o calor no Japão é tão intenso, conheça os recordes históricos, as mortes por insolação, as causas climáticas e como se proteger.
Todos os anos, entre junho e setembro, milhões de pessoas no Japão enfrentam um verão que está entre os mais desconfortáveis do mundo.
Embora muitos imaginem o país como a terra das cerejeiras, da neve de Hokkaido ou das folhas vermelhas do outono, a realidade é que o verão japonês é extremamente perigoso, causando a hostitalização de cerca de 100 mil pessoas por ano, além milhares de óbitos.
Temperaturas superiores a 40°C, umidade frequentemente acima de 80%, noites tropicais sem refresco e um fenômeno urbano que amplia ainda mais o calor fazem com que o Japão registre milhares de internações por insolação e centenas de mortes todos os anos.
Nos últimos anos, as mudanças climáticas intensificaram ainda mais esse cenário, levando o governo japonês a criar sistemas nacionais de alerta para calor extremo.
O verão japonês não é apenas quente: ele é extremamente úmido
O maior problema não é apenas a temperatura.
Em cidades como Tóquio, Osaka, Kyoto, Nagoya e Fukuoka é comum registrar temperaturas entre 35°C e 38°C, acompanhadas de umidade relativa superior a 70–85%.
Essa combinação reduz drasticamente a capacidade do corpo humano de eliminar calor através do suor. Na prática, uma temperatura de 35°C pode ser percebida como mais de 45°C, dependendo da umidade e da radiação solar.
Por isso, muitos japoneses afirmam que o verão do país é mais difícil de suportar do que o de regiões desérticas, onde o ar é muito mais seco.
A influência das monções asiáticas

Uma das principais razões para o calor japonês é sua posição geográfica.
Durante o verão ocorre a atuação das monções do Pacífico, que transportam enormes quantidades de ar quente e úmido em direção ao arquipélago.
Esse ar vem principalmente de regiões tropicais próximas:
● Mar das Filipinas
● Oceano Pacífico Ocidental
● Mar da China Oriental
Como resultado:
● aumenta drasticamente a umidade;
● surgem chuvas intensas durante a estação chuvosa (tsuyu);
● logo após o fim das chuvas, instala-se um calor intenso e abafado.
A estação das chuvas piora o verão
Antes do pico do verão ocorre o Tsuyu (梅雨).
Essa estação chuvosa normalmente acontece entre:
● início de junho;
● meados de julho.
Durante semanas, o solo absorve enorme quantidade de água.
Quando o céu finalmente abre e o sol aparece, ocorre intensa evaporação, elevando ainda mais a umidade do ar.
É por isso que julho costuma ser muito mais desconfortável do que agosto em diversas regiões.
O anticiclone do Pacífico
Outro fator importante é o fortalecimento do Anticiclone Subtropical do Pacífico.
Esse sistema de alta pressão:
● impede a formação de nuvens;
● favorece céu limpo;
● reduz ventos;
● aumenta a incidência solar.
Com menos circulação de ar, o calor permanece preso sobre as cidades durante dias consecutivos.
O efeito “ilha de calor” nas cidades
As grandes metrópoles japonesas sofrem fortemente com o chamado efeito ilha de calor urbano.
Concreto, vidro e asfalto absorvem enorme quantidade de energia durante o dia.
À noite, todo esse calor é liberado lentamente.
Como consequência:
● as noites permanecem extremamente quentes;
● apartamentos não conseguem resfriar;
● o corpo humano não recupera sua temperatura normal.
Em Tóquio, é comum haver dezenas de noites consecutivas acima de 25°C, chamadas de “noites tropicais” (Nettaiya).
O relevo japonês também contribui
Cerca de 73% do território japonês é montanhoso.
As montanhas dificultam a circulação de massas de ar.
Em muitas cidades localizadas em planícies costeiras, o ar quente fica “preso”, reduzindo ainda mais a ventilação.
Isso ocorre especialmente em Kyoto, Nagoya e Vale de Kanto (Tóquio).
O aquecimento global sendo um dos vilões
Nas últimas décadas, o Japão tem observado aumento consistente das temperaturas médias.
A Agência Meteorológica do Japão registra:
● ondas de calor mais longas;
● temperaturas recordes;
● noites tropicais mais frequentes;
● temporadas de calor iniciando mais cedo e terminando mais tarde.
Segundo estudos climáticos, o número de dias acima de 35°C praticamente dobrou em diversas regiões desde os anos 1990.
Recordes históricos de temperatura
Imagem: Depositphotos
O Japão já registrou alguns dos maiores valores de sua história recente,
Entre os principais recordes:
● 41,8 °C em Isesaki (Gunma) em agosto de 2025
● 41,2 °C em Tamba (Hyogo) em agosto de 2020
● 41,1°C em Kumagaya (Saitama) em julho de 2018
● 41,1°C em Hamamatsu (Shizuoka) em agosto de 2020
Essas são, até hoje, as maiores temperaturas oficialmente registradas no país.
Segundo a Agência Meteorológica do Japão (JMA), em 2025 Kyoto quebrou uma barreira histórica ao registrar 40°C pela primeira vez em 142 anos de monitoramento local.
Em um único dia de agosto, 17 cidades japonesas diferentes bateram simultaneamente seus recordes máximos de temperatura de todos os tempos.
O índice WBGT: mais importante que a temperatura
O Japão utiliza amplamente o WBGT (Wet Bulb Globe Temperature).
Esse índice considera:
● temperatura;
● umidade;
● radiação solar;
● velocidade do vento.
Diferentemente do termômetro comum, o WBGT mede o risco real para o corpo humano.
Se o índice WBGT ultrapassa os 31°C, o corpo humano perde a capacidade física de dissipar calor por meio da transpiração, resultando em falência interna dos órgãos por estresse térmico em menos de 30 minutos se houver exposição direta.
Quando o índice ultrapassa os níveis aceitáveis, escolas suspendem atividades esportivas e autoridades emitem alertas nacionais de insolação.
O que é o Alerta de Insolação?
Desde 2021, o governo japonês opera o Netchushō Keikai Alarms (熱中症警戒アラート), nome japonês para Alerta Especial de Insolação.
O sistema é acionado quando o WBGT indica risco extremo.
Quando isso acontece, recomenda-se:
● evitar atividades físicas;
● permanecer em ambientes climatizados;
● aumentar a ingestão de água;
● monitorar idosos e crianças;
● suspender eventos ao ar livre quando necessário.
O alarme é disparado diretamente nos celulares da população sempre que o índice técnico WBGT for projetado para passar de 35 em alguma província.
Cooling Shelters (Abrigos de Resfriamento públicos)
Cidades como Tóquio, Yokohama e Osaka passaram a designar legalmente edifícios comerciais, bibliotecas e shopping centers climatizados como “abrigos de resfriamento” obrigatórios, onde qualquer pessoa pode entrar gratuitamente para baixar a temperatura corporal.
Geralmente possuem cartazes na entrada (muitas vezes com um urso polar branco) indicando que são locais de refúgio contra o calor e podem ser usados sempre que os alertas de insolação forem emitidos devido ao índice de calor (WBGT) atingir níveis perigosos.
Muitas cidades também disponibilizam os chamados Cool Share Spots, que são locais climatizados abertos durante todo o verão independentes do alerta do governo para que as pessoas possam economizar energia em casa e se refrescar.
Quantas pessoas morrem de calor no Japão?
O calor extremo tornou-se um importante problema de saúde pública.
Segundo o Ministério da Saúde do Japão, as mortes por insolação variam bastante de ano para ano, conforme a intensidade do verão.
Porém, desde a década de 1990, o país tem registrado centenas de mortes anuais, com picos superiores a mil óbitos em anos de calor excepcional.
Nos últimos dez anos, o Ministério da Saúde reportou mais de 12.400 mortes diretas por insolação. Atualmente, o país registra uma média crônica que varia entre 1.100 e 1.500 mortes por ano causadas pela exaustão térmica.
Quem corre maior risco?
Os grupos mais vulneráveis são:
● idosos;
● bebês;
● crianças;
● trabalhadores da construção civil;
● agricultores;
● atletas;
● turistas;
● pessoas com doenças cardiovasculares;
● diabéticos.
Os dados oficiais também mostram que a grande maioria das vítimas tem 65 anos ou mais.
Os idosos representam a maioria absoluta das mortes porque o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura e de perceber a sensação de sede. Além disso, muitos residem sozinhos e resistem ao uso do ar-condicionado por razões culturais ou economia.
O Ministério do Trabalho também registrou um recorde histórico de 1.803 acidentes térmicos em ambientes de trabalho (especialmente na construção civil e agricultura), forçando o governo a decretar regras rígidas de pausas obrigatórias para salvar operários.
Como reconhecer uma insolação
Todos os verões, dezenas de milhares de pessoas são transportadas de ambulância por insolação ou exaustão pelo calor.
Entre maio e setembro de 2025, a Agência de Gestão de Incêndios e Desastres do Japão (FDMA) registrou mais de 100.000 internações de emergência decorrentes de sintomas graves de insolação. Os principais sintomas incluem:
● tontura;
● dor de cabeça;
● náusea;
● suor excessivo ou ausência de suor;
● pele muito quente;
● confusão mental;
● dificuldade para caminhar;
● desmaios.
Nos casos mais graves:
● convulsões;
● perda de consciência;
● falência de órgãos;
● morte.
Como os japoneses enfrentam o verão
Imagem: Depositphotos
O Japão desenvolveu uma verdadeira cultura de prevenção ao calor.
Entre os hábitos mais comuns estão:
● uso constante de garrafas de água;
● bebidas isotônicas para reposição de sais minerais;
● sombrinhas com proteção UV;
● roupas leves e respiráveis;
● toalhas refrescantes para o pescoço;
● ventiladores portáteis;
● mangas com proteção solar;
● uso intenso de ar-condicionado.
Também são comuns os coletes refrigerados para trabalhadores expostos ao sol.
Dicas para turistas
Se você pretende visitar o Japão entre junho e setembro:
● beba água regularmente, mesmo sem sentir sede;
● faça pausas frequentes em locais climatizados;
● utilize chapéu ou sombrinha;
● prefira passeios ao ar livre antes das 10h ou após as 17h;
● use roupas leves e de cores claras;
● acompanhe os alertas meteorológicos;
● leve bebidas isotônicas para repor eletrólitos;
● nunca subestime a combinação de calor e umidade.
Conclusão
O verão japonês é resultado da combinação de diversos fatores naturais e urbanos: a influência das monções asiáticas, o fim da estação das chuvas, a atuação do anticiclone do Pacífico, o relevo montanhoso e o intenso efeito de ilha de calor nas grandes cidades.
Somado às mudanças climáticas, esse conjunto tem tornado as ondas de calor mais frequentes, duradouras e perigosas.
Embora o Japão seja reconhecido por sua excelente infraestrutura e organização, o calor extremo já representa um dos principais desafios de saúde pública do país.
Por isso, autoridades investem em sistemas de alerta, campanhas educativas e monitoramento constante para reduzir o número de internações e mortes.
Para moradores e turistas, compreender os riscos e adotar medidas simples de prevenção — como hidratação adequada, evitar exposição nos horários mais quentes e respeitar os alertas de calor — pode fazer toda a diferença durante o verão japonês.
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