Shōryō-uma e Shōryō-ushi: o significado dos cavalos e bois de pepino e berinjela no Obon japonês

Cavalos e bois de pepino e berinjela usados no Obon

Shōryō-uma e Shōryō-ushi, os tradicionais cavalos de pepino e bois de berinjela usados durante o Obon para homenagear os ancestrais no Japão.

Entre as inúmeras tradições que fazem do Obon (お盆) uma das celebrações mais emocionantes do Japão, poucas são tão curiosas e simbólicas quanto os Shōryō-uma (精霊馬) e Shōryō-ushi (精霊牛).

Feitos de maneira simples com pepinos, berinjelas e pequenos palitos de madeira, esses pequenos animais representam os meios de transporte usados pelos espíritos dos antepassados durante sua visita ao mundo dos vivos.

Embora pareçam apenas artesanatos decorativos, os Shōryō-uma e Shōryō-ushi carregam um profundo significado espiritual, transmitido de geração em geração há séculos.

Eles simbolizam o desejo de que os ancestrais cheguem rapidamente ao lar da família e retornem ao mundo espiritual de forma tranquila, levando consigo as oferendas, as orações e a gratidão de seus descendentes.

Neste artigo, conheça a origem dessa tradição, seu simbolismo, como esses pequenos animais são confeccionados e por que continuam sendo um dos elementos mais queridos do Obon japonês.

O que são Shōryō-uma e Shōryō-ushi?

Os termos Shōryō-uma (精霊馬) e Shōryō-ushi (精霊牛) podem ser traduzidos literalmente como:

Shōryō (精霊): espírito ou alma dos antepassados;
Uma (馬): cavalo;
Ushi (牛): boi.

Essas pequenas figuras são confeccionadas utilizando:

● um pepino para representar o cavalo;
● uma berinjela para representar o boi;
● quatro palitos de madeira ou hastes de bambu como pernas.

Depois de montados, são colocados sobre os altares familiares (butsudan), na entrada das casas ou próximos às oferendas durante o Obon.

O significado do cavalo de pepino

Cavalos e bois de pepino e berinjela no Obon japonêsImagem: photo-ac

O Shōryō-uma, feito com um pepino, representa um cavalo.

Na tradição japonesa, o cavalo simboliza velocidade.

Por isso, acredita-se que os espíritos dos ancestrais utilizam esse animal para chegar rapidamente ao lar de seus familiares assim que o Obon começa.

O desejo é que os entes queridos não percam tempo no caminho e possam aproveitar ao máximo o período em que permanecem entre os vivos.

O significado do boi de berinjela

Já o Shōryō-ushi, confeccionado com uma berinjela, representa um boi.

Ao contrário do cavalo, o boi caminha lentamente.

Esse ritmo tranquilo possui um significado especial: deseja-se que os espíritos retornem ao mundo espiritual sem pressa, levando consigo todas as oferendas, bênçãos, lembranças e demonstrações de carinho recebidas durante sua visita.

Em algumas interpretações, o retorno lento também simboliza o desejo dos familiares de prolongar, ainda que simbolicamente, a presença dos antepassados.

A origem da tradição

Cavalos e bois de pepino e berinjela no Obon japonêsImagem: photo-ac

A origem exata dos Shōryō-uma e Shōryō-ushi não é conhecida, mas acredita-se que essa prática tenha se consolidado durante o período Edo (1603–1868), quando as celebrações do Obon passaram a incorporar diversas tradições populares regionais.

A ideia de utilizar animais como montarias para os espíritos provavelmente combina elementos:

● do budismo;
● do xintoísmo;
● de antigas crenças agrícolas japonesas.

Como o Japão sempre teve forte ligação com a agricultura, utilizar legumes frescos para representar esses animais tornou-se uma forma simples e acessível de expressar devoção.

Por que usar pepino e berinjela?

Cavalos e bois de pepino e berinjela no Obon japonêsImagem: photo-ac

A escolha dos vegetais não é aleatória.

Durante o verão japonês, época em que ocorre o Obon, tanto o pepino quanto a berinjela estão em plena safra. Esses alimentos sempre estiveram presentes nas hortas das famílias japonesas, tornando-se ingredientes fáceis de obter.

Além disso:

● o formato alongado do pepino lembra naturalmente o corpo de um cavalo;
● a berinjela, mais robusta, remete ao corpo de um boi.

Como são confeccionados?

Os Shōryō-uma e Shōryō-ushi são extremamente simples de fazer.

Os materiais necessários são:

● 1 pepino;
● 1 berinjela;
● 8 palitos de madeira ou hastes finas de bambu.

Os palitos são inseridos na parte inferior dos vegetais para formar as quatro pernas de cada animal. Algumas famílias também utilizam:

● olhos desenhados;
● pequenas caudas;
● enfeites de papel.

Entretanto, a maioria prefere manter um visual bastante simples, valorizando o simbolismo em vez da aparência.

Onde são colocados?

Tradicionalmente, os pequenos animais são posicionados:

● sobre o altar budista da família (butsudan);
● próximos às oferendas de frutas e doces;
● diante das fotografias dos familiares falecidos;
● em pequenos altares montados especialmente para o Obon.

Em algumas regiões, também podem ser colocados próximos à entrada da casa para simbolizar a chegada dos espíritos.

As posições que devem ser colocados

Ao serem colocados em altar budista doméstico ou entrada da casa, existem três posições costumeiramente usados:

Para dar boas vindas aos ancestrais: Pepino e berinjela de frente um para o outro, voltados para o altar budista como forma de saudar os ancestrais.

Para se despedir os ancestrais: ambos são colocados voltados para fora, de costas para o altar budista.

Em algumas regiões do Japão tem-se o costume de posicionar o pepino voltado para o altar budista ou entrada da casa e a berinjela voltada para fora, permanecendo nessa posição durante todo o ritual de boas-vindas e despedida dos espíritos.

Outra posição é colocar o pepino virado para oeste e a berinjela virada para leste. Esta decoração baseia-se na crença de que os antepassados ​​regressam do leste.

A ligação com o Mukaebi e o Okuribi

Cavalos e bois de pepino e berinjela no Obon japonês

Os Shōryō-uma e Shōryō-ushi fazem parte de um conjunto maior de rituais do Obon que inclui fogueiras ritualísticas chamadas de Mukaebi (迎え火) e Okuribi (送り火).

Na abertura da celebração (Mukaebi), as famílias acendem pequenas fogueiras ou lanternas para guiar os espíritos até a residência da família.

Nesse momento, acredita-se que os ancestrais chegam montados no cavalo de pepino.

Ao final do Obon, realiza-se o Okuribi (送り火), a cerimônia de despedida.

É então que os espíritos retornariam ao mundo espiritual utilizando o boi de berinjela.

A data do Obon varia conforme a região, mas geralmente ocorre entre os dias 13 e 16 de julho ou agosto.

Relação com o Tōrō Nagashi

Em diversas regiões, após o encerramento das homenagens familiares, realiza-se o Tōrō Nagashi (灯籠流し), a cerimônia em que lanternas de papel são colocadas para flutuar em rios ou no mar.

Enquanto os Shōryō-uma e Shōryō-ushi simbolizam o transporte terrestre dos espíritos, as lanternas representam a luz que ilumina o caminho de volta ao mundo espiritual.

Esses rituais complementam-se e reforçam a ideia de uma despedida serena e respeitosa.

Uma tradição ensinada às crianças

A confecção dos pequenos animais costuma envolver toda a família.

É comum que pais e avós ensinem às crianças:

● como montar os animais;
● o significado de cada um;
● a importância do respeito aos antepassados.

Assim, a tradição continua sendo transmitida entre gerações.

Diferenças regionais

Cavalos e bois de pepino e berinjela no Obon japonêsImagem: photo-ac

Embora o cavalo de pepino e o boi de berinjela sejam os modelos mais conhecidos, algumas regiões do Japão apresentam pequenas variações.

Em determinadas localidades:

● outros vegetais ou materiais podem ser utilizados;
● os animais recebem enfeites específicos;
● o posicionamento no altar segue costumes próprios.

Essas diferenças refletem a rica diversidade cultural do país.

O simbolismo dos alimentos

Além de servirem como “montarias”, os vegetais representam a abundância das colheitas de verão.

Ao oferecê-los aos ancestrais, as famílias expressam gratidão pelas bênçãos recebidas ao longo do ano e compartilham simbolicamente os frutos da terra com aqueles que já partiram.

Os Shōryō-uma na cultura contemporânea

Mesmo com a urbanização e a redução do número de famílias que mantêm altares budistas em casa, os Shōryō-uma continuam sendo amplamente confeccionados durante o Obon.

Supermercados, floriculturas e lojas especializadas costumam vender kits completos para facilitar a montagem.

Museus, escolas e centros culturais também promovem oficinas para ensinar a tradição às novas gerações.

O que é feito com essas decorações após o fim do Obon?

No caso de oferendas, elas frequentemente são compartilhadas e consumidas pelos membros da família após serem apresentadas aos ancestrais.

No entanto, Shōryō-uma e Shōryō-ushi não são oferendas e sim veículos para os ancestrais, portanto, não devem ser consumidos.

Uma vez cumprida sua função como veículos, eles devem ser descartados adequadamente como itens perecíveis ou objetos memoriais.

O método mais comum é purificar os cavalos espirituais com sal, envolvê-los em papel toalha e descartá-los como lixo orgânico. Ao polvilhar sal sobre eles, eles deixam de ser transportes espirituais e retornam ao seu estado original como vegetais.

Outras maneiras é queima-los em uma fogueira de despedida (Okuribi) ou enterra-los no jardim, caso tenha, devolvendo-os à natureza.

Originalmente, os Shōryō-uma eram lançados em rios como despedida do Obon, mas atualmente por questões ambientais, são descartados como lixo doméstico.

Em algumas regiões do Japão, as decorações também podem ser levadas em templos, onde é feita uma cerimônia memorial e depois descartados mediante uma pequena taxa.

Curiosidades

O Shōryō-uma e o Shōryō-ushi são conhecidos popularmente como os “animais do Obon”.

Os palitos que formam as pernas costumam ser feitos de bambu ou madeira.

Algumas famílias confeccionam os animais poucos dias antes do início do Obon.

Em muitas casas, eles permanecem no altar durante todo o período da celebração.

Após o Obon, os vegetais são descartados de forma respeitosa ou devolvidos à natureza, conforme os costumes locais.

A tradição é especialmente forte em regiões rurais, onde a ligação com a agricultura permanece mais presente.

O significado na cultura japonesa

Os Shōryō-uma e Shōryō-ushi representam valores profundamente enraizados na cultura japonesa:

● respeito pelos ancestrais;
● gratidão;
● hospitalidade;
● continuidade entre gerações;
● conexão com a natureza;
● valorização da simplicidade.

Mesmo sendo confeccionados com materiais humildes, carregam um simbolismo capaz de emocionar milhões de famílias todos os anos.

Conclusão

Os Shōryō-uma e Shōryō-ushi são muito mais do que pequenos artesanatos feitos com pepinos e berinjelas. Eles simbolizam a jornada espiritual dos antepassados durante o Obon e expressam o carinho, o respeito e a gratidão das famílias japonesas por aqueles que vieram antes.

Ao representar a chegada rápida dos espíritos no cavalo de pepino e seu retorno tranquilo no boi de berinjela, essa tradição ensina, de forma delicada e poética, que a memória dos ancestrais continua viva nas ações e nos sentimentos das gerações seguintes.

Em um país onde a preservação das tradições ocupa um lugar central na identidade nacional, os Shōryō-uma e Shōryō-ushi permanecem como um dos símbolos mais tocantes da relação entre vivos e mortos, lembrando que o verdadeiro legado de uma família está na continuidade de sua memória e de seus valores.

Imagem do topo: photo-ac

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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