A polêmica sobre os manequins das vítimas da bomba atômica do Museu Memorial da Paz de Hiroshima

A polêmica sobre as bonecas das vítimas da bomba atômica de Hiroshima

Embora tenham causado forte impacto em muitos visitantes, elas deixaram de fazer parte da exposição permanente após as sucessivas reformas do museu.

Durante décadas, algumas das imagens mais perturbadoras associadas ao Museu Memorial da Paz de Hiroshima não eram fotografias de corpos ou ruínas, mas manequins em tamanho real que representavam pessoas atingidas pela bomba atômica.

No Japão são chamadas de Hibaku Saigen Ningyō (被爆再現人形) que significa “Bonecas das Vítimas da Bomba Atômica”. Elas foram utilizadas como recurso educativo para transmitir, de maneira visual e emocional, o sofrimento causado pelo bombardeio de 6 de agosto de 1945.

A instalação artística representava três vítimas (uma mãe, seu filho e uma estudante) caminhando em agonia logo após a explosão, com as roupas em farrapos e a pele derretida pendendo dos braços.

Essas figuras começaram a ser exibidas no museu em 1991, posicionadas perto da entrada do prédio principal em um diorama que recriava uma seção de Hiroshima ardendo em fogo e em seguida reduzida a cinzas imediatamente após o bombardeio atômico.

Os visitantes logo que chegavam ao museu se dearavam com uma visão impactante devido à grande escala do diorama e aos efeitos dramáticos de iluminação, dando eles uma ideia do imenso poder destrutivo que a bomba atômica inflige às pessoas e às cidades.

Segundo o relato de muitas pessoas que visitaram o museu, esta instalação exerceram forte influência na formação da sua percepção sobre a bomba atômica.

Em 2013, o governo de Hiroshima anunciou a remoção completa dos manequins, o que dividiu a opinião pública até sua retirada definitiva em abril de 2017.

Os Dois Lados da Polêmica

A polêmica sobre as bonecas das vítimas da bomba atômica de Hiroshima

A decisão de retirar os manequins gerou argumentos de peso tanto por parte das associações de sobreviventes quanto do público geral.

Surpreendentemente, a maior pressão para a remoção veio dos próprios Hibakushas (os sobreviventes da bomba).

Liderados por figuras como Sunao Tsuboi, presidente da Organização de Sofredores de Bombas Atômicas, eles argumentavam que os manequins de plástico pareciam “brinquedos” e não faziam jus ao verdadeiro horror da tragédia.

Para os sobreviventes, as representações artificiais suavizavam o cenário apocalíptico daquele dia. Eles defendiam que o museu deveria focar no poder devastador de objetos reais deixados pelas vítimas, que carregam uma energia e autenticidade inquestionáveis.

Por outro lado, o público geral, professores e historiadores lutaram intensamente para manter a exibição, coletando mais de 10.000 assinaturas em petições.

O argumento era que os manequins forneciam um choque visual imediato e visceral, indispensável para que as novas gerações e turistas estrangeiros (que nunca vivenciaram uma guerra) pudessem entender a crueldade das armas nucleares instantaneamente.

Havia o temor de que, sem aquela imagem impactante na entrada, a mensagem de horror do museu ficasse abstrata demais para as crianças e estudantes em excursão escolar.

“Assustava demais as crianças”

Durante o auge do debate, circulou um forte boato na internet japonesa de que o museu estaria retirando as peças porque agências de turismo teriam reclamado que a exibição “assustava demais as crianças” e causava pesadelos.

Embora relatórios de conselhos municipais tenham citado que alguns visitantes achavam o cenário assustador, a diretoria do museu negou categoricamente que esse tenha sido o motivo da remoção.

A Mudança de Foco no Novo Museu

Hiroshima Peace Memorial Museum Imagem: Depositphotos

Após a grande reforma finalizada em 2019, o Museu de Hiroshima adotou uma postura curatorial baseada puramente na autenticidade dos pertences reais.

No lugar dos manequins de plástico, os visitantes agora encontram uma iluminação sombria focada em relíquias reais e devastadoras, como o famoso triciclo de Shinichi Tetsutani (um menino de 3 anos que morreu segurando o brinquedo).

Também focaram nas roupas infantis queimadas e rasgadas com as fotos e os nomes reais das crianças que as vestiam e nas paredes manchadas de verdade pela Chuva Negra radioativa.

Os curadores concluíram que um par de sapatos destruído ou uma marmita carbonizada com o arroz queimado de um estudante têm um poder narrativo muito mais profundo e respeitoso do que qualquer manequim de cera.

Kan Ryohei e os paineis de Hiroshima

A polêmica sobre as bonecas das vítimas da bomba atômica de Hiroshima

O artista e pesquisador japonês Kan Ryohei desenvolveu um aclamado projeto de artes visuais e pesquisa histórica focado justamente nos manequins de vítimas da bomba atômica que foram retirados do Museu Memorial da Paz de Hiroshima.

Através de exposições contemporâneas de fotografia, painéis e instalações sediadas na renomada Galeria Maruki para os Painéis de Hiroshima, o artista questiona os limites da representação do trauma e como a memória histórica é transmitida às novas gerações.

As imagens dos manequins em um fundo branco mostram muitos mais detalhes que não podiam ser observados nos dioramas que retratavam chamas intensas e iluminação dramática, durante sua exposição no Museu Memorial da Paz de Hiroshima.

Segundo Ryohei, a instalação conceitual serve como uma frente complementar para garantir que o apelo dos Hibakushas contra o armamento nuclear não desapareça conforme as testemunhas oculares humanas vão falecendo devido à idade avançada.

O museu e os testemunhos dos hibakusha

Durante décadas, os hibakusha (sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki contaram suas experiências diretamente às novas gerações.

Eles descreveram com detalhes tudo o que sentiram no momento da explosão, o calor infernal, as pessoas feridas, os incêndios, a destruição da cidade, a perda de familiares, o cheiro de morte que pairava no ar e os efeitos posteriores da radiação.

No entanto, a idade média dos hibakusha reconhecidos oficialmente já ultrapassou os 86 anos.

Isso significa que cada vez menos pessoas que vivenciaram diretamente o bombardeio conseguem contar suas histórias pessoalmente e preservar esses relatos tornou-se uma das principais preocupações do movimento pela memória de Hiroshima e Nagasaki.

Conclusão

As chamadas “bonecas que representavam as vítimas da bomba atômica” fazem parte de um capítulo pouco conhecido da história da memória de Hiroshima.

Durante o período em que foram utilizadas em exposições, essas representações provocaram forte impacto ao mostrar, de maneira visual, o sofrimento causado pelo bombardeio atômico, especialmente entre crianças.

Embora elas já não estejam em exposição permanente, a história que representavam continua viva no Museu Memorial da Paz de Hiroshima. Hoje, objetos autênticos, fotografias, documentos e testemunhos de hibakusha ocupam papel central na narrativa do museu.

Talvez essa seja justamente a maior força da memória de Hiroshima: não permitir que a história seja reduzida a números, datas ou acontecimentos militares.

Por trás de cada estatística havia uma pessoa, uma família, uma criança, uma rotina e sonhos que foram interrompidos em uma manhã de agosto.

E é por isso que, mesmo décadas depois, Hiroshima continua perguntando ao mundo como podemos impedir que algo semelhante aconteça novamente.

Author photo
Publication date:
Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *