Himeyuri Gakutotai: As estudantes que foram recrutadas para a Batalha de Okinawa
A história de Himeyuri Gakutotai tornou-se um símbolo poderoso dos horrores da guerra e do sofrimento dos civis e jovens durante a Batalha de Okinawa.
Himeyuri Gakutotai (ひめゆり学徒隊) que pode ser traduzido como “Corpo Estudantil das Princesas Lírio” era um grupo de 222 alunas e 18 professoras de duas escolas: Primeira Escola Secundária Feminina de Okinawa e Escola Normal Feminina de Okinawa.
Elas foram mobilizadas em uma unidade de enfermagem pelo exército japonês em 23 de março de 1945, durante a Batalha de Okinawa. As alunas foram erroneamente informadas de que o exército japonês derrotaria facilmente a invasão americana e que estariam a salvo do perigo.
Elas foram chamadas para atuar em hospitais de campanha improvisados em cavernas sob constantes tiros e bombardeios. Muitas levaram seus materiais escolares e uniformes para estudar e se preparar para voltar à escola, no entanto poucas conseguiram sobreviver à guerra.
Alunas da Escola Normal Feminina de Okinawa com seu diretor, Sadao Noda. (Museu da Paz Himeyuri)
Elas haviam sido falsamente informadas que iriam trabalhar em hospitais da Cruz Vermelha, longe dos combates, no entanto as estudantes Himeyuri foram posicionadas nas linhas de frente, limpando feridas e realizando cirurgias e amputações em condições terríveis.
Além disso, as estudantes e professoras foram obrigadas a remover cadáveres e enterrá-los e transportavam munição e suprimentos para as tropas da linha de frente e outras tarefas com risco de vida sob fogo contínuo durante a batalha de quase três meses.
Elas trabalhavam com pouca comida e descanso, cercadas pelo cheiro de carne em decomposição e sangue. Perto do final da batalha de Okinawa, as sobreviventes sofreram com doenças e desnutrição em cavernas escuras cheias de soldados gravemente feridos e mortos.
Ruínas da caverna que serve de sede ao Hospital do Exército de Okinawa (photo-AC)
Em 18 de junho de 1945, com a derrota japonesa iminente, o exército ordenou a dissolução do corpo de enfermagem e mandou as estudantes para casa, diretamente para o fogo cruzado. Até a unidade de Himeyuri ser dissolvida, apenas 19 estudantes haviam sido mortas.
Ao saírem, muitas alunas se depararam com o fogo cruzado das forças japonesas e americanas e perderam a vida. Nas primeiras horas do dia seguinte (19 de junho), 5 professores e 46 alunos estavam escondidas dentro da caverna foram mortas durante um ataque com bomba de fósforo branco pelas forças americanas, que não sabiam da presença das alunas.
Algumas sobreviventes, temendo maus-tratos pelos americanos ou estupro, tiraram suas próprias vidas, usando granadas, se jogando dos penhascos a costa de Arasaki se envenenando com cianeto que eram administrados a soldados em estado terminal.
Dos 240 membros do grupo (estudantes e professoras), 227 perderam a vida na batalha de Okinawa. A história do Himeyuri Gakutotai tornou-se um símbolo poderoso dos horrores da guerra e do sofrimento dos civis e jovens em Okinawa.
Depoimento de uma sobrevivente Himeyuri
Uma aluna sobrevivente, Yoshiko Shimabukuro, tinha 17 anos na época e conta que sobreviveu escondendo-se em um abrigo subterrâneo com outras duas estudantes. Quando soldados americanos as descobriram, ela gritou para que a matassem, mas eles não o fizeram.
Ela que pensava que a batalha terminaria em dias, passou meses cuidando de soldados japoneses que tiveram membros arrancados ou seus corpos dilacerados, ferimentos extremos que os faziam entrar em delírio. Antes da guerra, ela só sabia como fazer um curativo.
Levada em uma maca para um campo de prisioneiros de guerra americano, Shimabukuro se sentia extremamente culpada por ter sobrevivido à guerra, enquanto tantos de seus colegas, incluindo sua irmã e seu irmão, haviam morrido.
Shimabukuro só encontrou forças para viver depois de saber que seus pais estavam vivos, mas gravemente feridos e precisavam de cuidados.
Monumento Memorial Himeyuri
Monumento Memorial Himeyuri (photo-AC)
O Monumento Himeyuri foi construído em 7 de abril de 1946 em memória daquelas que morreram. O monumento fica em frente ao Museu da Paz.
Ele lista os nomes de todas as alunas e professoras Himeyuri que faleceram durante a guerra. Algumas sobreviventes ajudaram a construir e continuam a manter as instalações. Até 2020, ainda existiam algumas estudantes Himeyuri vivas como Yoshiko Shimabukuro.
Museu da Paz Himeyuri
Museu da Paz Himeyuri (photo-AC)
O Museu da Paz de Himeyuri (Himeyuri Peace Museum), inaugurado em 1989 em Itoman, Okinawa, é dedicado a preservar a memória e as histórias das estudantes, funcionando como um farol de esperança e um lembrete para as gerações mais jovens sobre a importância da paz.
O Museu foi modelado a partir do edifício principal da escola onde as meninas estudaram. Renovado e reinaugurado no Dia da Memória de Okinawa em 2009, o museu possui seis salas de exposição com fotos da véspera da Batalha de Okinawa, do Hospital de Campanha do Exército de Haebaru, retratos das vítimas, painéis explicando as circunstâncias de suas mortes, 28 volumes de depoimentos e memórias de sobreviventes e um diorama em tamanho real da caverna onde muitos estudantes perderam a vida.
Os depoimentos das estudantes de enfermagem dão vida a cada fase da batalha. Algumas delas atuaram como guias turísticas e curadoras no museu. Uma segunda reforma do museu ocorreu em junho de 2020, com a participação das estudantes sobreviventes de Himeyuri.
Presença da Base Americana em Okinawa
Até o Japão anexar Okinawa no final do século XIX, era um estado independente chamado Reino de Ryukyu.
O território possuía língua e cultura próprias e desfrutava de fortes laços diplomáticos e comerciais com a China e outros países do sudeste asiático, dos quais recebia influências culturais.
Nessa batalha, que durou quase três meses e foi uma das mais sangrentas da guerra, o arquipélago perdeu quase um terço de sua população e, pelos próximos 27 anos, seria ocupado por tropas americanas.
Em 1972, os EUA devolveram Okinawa ao controle do Japão, 20 anos depois do resto do Japão, mas cerca de 50.000 militares e civis americanos permanecem em dezenas de instalações, o que corresponde a 70% da presença militar dos EUA no Japão.
Os EUA afirmam que suas bases em Okinawa ajudam a defender o Japão e a manter a paz na região da Ásia-Pacífico. Os EUA chamam a ilha subtropical, localizada a 1.500 quilômetros de Tóquio, de “pedra angular do Pacífico” devido à sua localização estratégica.
A presença militar americana em Okinawa tem causado debates. Grande parte da população mais velha, que vivenciou a Batalha de Okinawa, não são favoráveis às bases americanas pois estão associadas à estupros, protestos e acidentes militares.
Eles temem que as gerações mais jovens se esqueçam das dificuldades enfrentadas durante a guerra e suas consequências.
Muitos filmes foram feitos para retratar esse triste e marcante episódio da Batalha de Okinawa.
Himeyuri no Tô (Torre dos Lírios): drama de guerra japonês (1953)
Taiheiyô Sensô to Himeyuri Butai (A Guerra do Pacífico e Himeyuri Corps): drama de guerra japonês (1962)
 Himeyuri no Tô ( Ah, The Tower of Lilies ): drama de guerra japonês (1968)
Himeyuri no Tô (Torre dos Lírios): drama de guerra japonês (1982)
Himeyuri no Tô (Torre dos Lírios): drama de guerra japonês (1995)
Himeyuri: documentário japonês (2007)




