Do bronzeado ao protetor solar: como os japoneses mudaram sua relação com o sol e abandonaram as praias lotadas

Do bronzeado ao protetor solar: como os japoneses mudaram sua relação com o sol e abandonaram as praias lotadas

Da febre do bronzeado ao culto da pele clara: Veja como tem ocorrido a transformação dos hábitos de verão ao longo das últimas décadas no Japão.

Durante as décadas de 1960, 1970 e 1980, o verão japonês tinha um símbolo quase obrigatório: praias lotadas, corpos bronzeados e campanhas publicitárias que incentivavam as pessoas a aproveitar o sol. O bronzeado era visto como sinônimo de saúde, juventude e modernidade.

Entretanto, nas últimas quatro décadas, essa realidade mudou drasticamente. A preocupação com os danos causados pelos raios ultravioleta (UV), a popularização dos cosméticos com proteção solar, as mudanças climáticas, a redução das praias e a diversificação das opções de lazer fizeram com que o Japão passasse por uma verdadeira transformação cultural.

Hoje, enquanto o país enfrenta verões cada vez mais quentes, proteger a pele tornou-se prioridade, e as praias já não recebem multidões como antigamente.

Quando o bronzeado virou moda no Japão

Bibari Maeda Shiseido Poster 1966

Durante séculos, a sociedade japonesa valorizou a pele clara.

A antiga expressão “hada no shiroi wa shichinan kakusu” (色の白いは七難隠す) — literalmente, “uma pele branca esconde sete defeitos” — refletia a ideia de que uma pele clara era símbolo de beleza, elegância e refinamento.

Essa tradição, porém, começou a mudar no pós-guerra, quando o Japão passou por um intenso processo de modernização e absorveu influências culturais do Ocidente.

A grande virada ocorreu em 1966, quando a Shiseido, uma das maiores empresas de cosméticos do Japão, lançou sua campanha de verão com o slogan “Deixe o sol te amar”.

A estrela da campanha era a modelo Bibari Maeda, de apenas 17 anos, fotografada usando um maiô e exibindo uma pele bronzeada — uma imagem considerada inovadora para a época.

O impacto foi imediato. Milhares de jovens passaram a associar o bronzeado a um estilo de vida moderno, esportivo e descontraído.

A era dourada das praias japonesas

Masako natsume, Kanebo 1977

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o bronzeado consolidou-se como uma tendência nacional.

Diversas campanhas publicitárias ajudaram a reforçar essa imagem.

Entre elas destacou-se a campanha “Oh! Cookie Face”, lançada pela Kanebo Cosmetics em 1977, estrelada pela atriz Masako Natsume, que rapidamente se tornou um fenômeno da cultura pop.

Poucos anos depois, em 1982, outro marco cultural fortaleceu essa tendência: a cantora Seiko Matsuda lançou o sucesso “Mugiiro no Mermaid” (A Sereia Cor de Trigo), cujo título fazia referência à pele dourada pelo sol.

Até o final da Era Showa (1926–1989), o bronzeado era visto como símbolo de juventude, saúde e vitalidade.

O auge das praias lotadas

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Durante os anos 1980, as praias japonesas viveram seu período de maior popularidade.

O verão era sinônimo de viagens ao litoral, esportes aquáticos, festas e encontros entre amigos.

Em 1985, o número de frequentadores das praias japonesas atingiu aproximadamente 37,9 milhões de pessoas, o maior registro da história recente.

Locais famosos, como a praia de Yuigahama, em Kamakura, ficavam completamente lotados durante os fins de semana de agosto.

Na época, uma expressão muito popular descrevia esse cenário:

“imo o arau yō” (芋を洗うよう)

A frase significa literalmente “como batatas sendo lavadas”, utilizada para descrever lugares extremamente cheios de pessoas.

Era uma imagem perfeita para representar as praias japonesas naquele período.

A descoberta do buraco na camada de ozônio mudou tudo

O início da década de 1980 marcou um importante ponto de inflexão.

Pesquisas realizadas pela Expedição Japonesa de Pesquisa Antártica ajudaram a confirmar a existência da redução da camada de ozônio sobre a Antártida.

Com isso, cresceram rapidamente as preocupações sobre os efeitos da radiação ultravioleta.

A camada de ozônio funciona como um escudo natural contra os raios UV, e sua redução passou a ser associada ao aumento do risco de:

● câncer de pele;
● queimaduras solares;
● envelhecimento precoce;
● catarata;
● danos ao sistema imunológico.

Ao mesmo tempo, diversos países começaram a restringir o uso dos clorofluorcarbonetos (CFCs), substâncias responsáveis pela destruição da camada de ozônio.

O retorno da pele clara

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Com a chegada da Era Heisei (1989–2019), os padrões de beleza voltaram a se aproximar das antigas tradições japonesas.

A pele clara recuperou seu prestígio.

Ao mesmo tempo, a indústria de cosméticos lançou uma enorme variedade de produtos com:

● proteção UV;
● ação clareadora;
● hidratantes com filtro solar;
● maquiagens com FPS;
● roupas com bloqueio dos raios ultravioleta.

O protetor solar deixou de ser um produto sazonal para se tornar um item de uso diário.

Hoje, é comum ver japoneses utilizando:

● sombrinhas com proteção UV;
● mangas protetoras;
● chapéus de abas largas;
● máscaras faciais;
● luvas para dirigir;
● roupas especiais contra o sol.

As praias começaram a esvaziar

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O efeito dessa mudança cultural foi rapidamente percebido.

Enquanto milhões de pessoas passaram a evitar longas exposições ao sol, outros fatores contribuíram para o declínio das praias.

Entre eles estão:

● maior preocupação com a saúde;
● aumento do uso de videogames e entretenimento doméstico;
● expansão dos centros comerciais climatizados;
● crescimento do turismo internacional;
● novas formas de lazer.

Como resultado, o número de frequentadores das praias caiu para cerca de um décimo do registrado em meados da década de 1980.

O calor extremo também afastou os banhistas

Outro fator importante é o aumento das temperaturas.

Nos últimos anos, o Japão passou a registrar com frequência dias acima dos 40°C, fenômeno que antes era raro.

As autoridades emitem constantemente alertas de insolação durante o verão.

Permanecer várias horas sob o sol tornou-se uma atividade de maior risco, especialmente para crianças, idosos e
pessoas com doenças crônicas.

Em muitas regiões, a própria areia da praia alcança temperaturas capazes de causar queimaduras nos pés.

Menos praias disponíveis

Além da redução do número de visitantes, o litoral japonês também vem sofrendo transformações ambientais.

Diversas praias perderam parte de sua faixa de areia devido a fatores como:

● erosão costeira;
● elevação do nível do mar;
● intensificação de tempestades;
● obras de contenção;
● mudanças climáticas.

Em consequência, algumas praias deixaram de ser oficialmente abertas para banho durante o verão.

O desafio de reconquistar o interesse pelo mar

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O Japão é tradicionalmente considerado uma nação ligada ao oceano.

Na mitologia japonesa, o mar é protegido por Watatsumi, a divindade das águas e dos mares.

Apesar dessa forte ligação cultural, o interesse pelas praias diminuiu significativamente.

Especialistas em turismo apontam que uma possível estratégia para atrair novamente visitantes é investir em experiências diferenciadas, como:

● festivais gastronômicos;
● eventos esportivos;
● instalações artísticas;
● iluminação noturna;
● atrações voltadas às redes sociais, como espaços “instagramáveis”.

A ideia é transformar as praias em destinos de lazer que ofereçam muito mais do que apenas banho de mar.

Curiosidades sobre a mudança dos hábitos de verão no Japão

A campanha “Deixe o sol te amar”, da Shiseido, em 1966, ajudou a popularizar o bronzeado no Japão.

A atriz Masako Natsume e a cantora Seiko Matsuda foram ícones da moda do bronzeado nas décadas de 1970 e 1980.

Em 1985, as praias japonesas receberam cerca de 37,9 milhões de visitantes, um recorde histórico.

O antigo ditado “pele clara esconde sete defeitos” voltou a ganhar força a partir da Era Heisei.

Hoje, guarda-sóis, sombrinhas com proteção UV e roupas especiais fazem parte do cotidiano do verão japonês.

A expressão “como batatas sendo lavadas”, usada para descrever praias lotadas, tornou-se cada vez menos comum devido à redução do número de banhistas.

Um verão que mudou com o tempo

A história das praias japonesas mostra como costumes e padrões de comportamento podem mudar em poucas décadas. O bronzeado, que já foi símbolo de modernidade e liberdade, deu lugar a uma cultura voltada para a proteção da pele e para a prevenção dos efeitos da radiação ultravioleta.

Ao mesmo tempo, fatores como o aquecimento global, os verões cada vez mais extremos, a erosão costeira e as novas formas de entretenimento transformaram profundamente a maneira como os japoneses aproveitam essa estação.

Mesmo assim, o mar continua ocupando um lugar especial na identidade cultural do país. O desafio para o futuro será encontrar novas formas de valorizar esse patrimônio natural, conciliando segurança, sustentabilidade e experiências capazes de atrair as novas gerações para o litoral japonês.

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

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