Incidente Yodogo (Voo 351): O primeiro sequestro de avião na história do Japão

O Voo 351 da Japan Airlines, também conhecido como o Incidente Yodogo, foi o primeiro sequestro de avião na história do Japão, ocorrido em 1970.
Em 31 de março de 1970, o Japão viveu um dos episódios mais dramáticos de sua história contemporânea: o Incidente Yodogo (Yodogō Haijakku Jiken), o primeiro sequestro de avião realizado por japoneses. Eles eram membros da Facção do Exército Vermelho Japonês (um grupo de extrema-esquerda).
Armados com espadas de samurai (katanas), pistolas e bombas caseiras, tomaram o controle do Boeing 727 logo após a decolagem de Haneda (Tóquio) com destino a Fukuoka.
O caso envolveu militantes radicais de esquerda, uma complexa negociação internacional e a fuga para a Coreia do Norte — em pleno auge da Guerra Fria.
O episódio não apenas chocou a opinião pública japonesa, como também redefiniu protocolos de segurança aérea no país e influenciou o debate sobre extremismo político nas décadas seguintes.
Contexto político: radicalização e Guerra Fria
O final da década de 1960 foi marcado por intensos protestos estudantis no Japão. Inspirados por movimentos revolucionários internacionais, jovens ativistas criticavam o capitalismo, o imperialismo americano e o Tratado de Segurança Japão–Estados Unidos.
A facção radical conhecida como Exército Vermelho Japonês (Sekigun-ha) era um grupo que defendia a revolução comunista mundial por meio da luta armada.
Entre os líderes do grupo estava Takaya Shiomi, ideólogo do movimento, embora ele não estivesse a bordo da aeronave. Com o codinome “Operação Fênix”, Shiomi começou a planejar o sequestro de um avião comercial japonês com o intuito de desviar o destino para Cuba.
No entanto, pouco antes do sequestro, Shiomi foi preso por acaso na rua em Komagome, Tóquio, em 15 de março de 1970, por ter sido confundido com um ladrão comum.
Mesmo assim, os sequestradores restantes prosseguiram com seus planos; em 31 de março de 1970, nove membros da Fração do Exército Vermelho, sequestraram o voo 351 da Japan Airlines, um Boeing 727 doméstico da Japan Airlines com 129 pessoas a bordo.
Dentre os passageiros estavam Shigeaki Hinohara, um dos médicos e educadores com mais tempo de serviço no mundo, Stephen Fumio Hamao, futuro arcebispo e cardeal , Daniel MacDonald, padre católico de Nova Iorque e Herbert Brill, diretor regional da Pepsi.
O que foi o Incidente Yodogo?
O chamado Incidente Yodogo refere-se ao sequestro do voo doméstico 351 da companhia aérea japonesa Japan Airlines (JAL), operado por um Boeing 727 apelidado de “Yodogo”.
A aeronave partiu do Aeroporto de Haneda, em Tóquio, com destino a Fukuoka. Pouco após a decolagem, nove jovens armados anunciaram o sequestro e exigiram que o avião fosse desviado para Havana, Cuba, para receber treinamento militar comunista.
Entre eles restavam Takamaro Tamiya de 27 anos e Moriaki Wakabayashi, baixista da banda de rock Hadaka no rariizu. O sequestrador mais jovem desse incidente tinha 16 anos.
Ao serem informados que a aeronave não tinha autonomia de combustível para cruzar o oceano, mudaram o destino para Pyongyang, Coreia do Norte pois este também seria um ponto estratégico para treinar e expandir a revolução socialista asiática.
Após uma parada para reabastecimento em Fukuoka, a polícia convenceu os sequestradores a libertarem 23 de seus reféns.
O Estratagema em Seul:
Os pilotos receberam um mapa da Península Coreana e anexado ao mapa havia um bilhete que instruía os pilotos a sintonizarem seus rádios em uma frequência específica.
Os controladores de tráfego aéreo, que estavam cientes da situação, intencionalmente deram aos pilotos instruções incorretas, numa tentativa de fazê-los pousar no Aeroporto de Gimpo, em Seul, Coreia do Sul, onde haviam disfarçado o aeroporto como sendo norte-coreano.
No entanto, ao aterrissar em Gimpo, os sequestradores perceberam rapidamente que haviam sido enganados ao notarem detalhes ocidentais e a presença de aviões americanos.
O vice-ministro dos transportes do Japão, Shinjiro Yamamura que estava em negociação com os sequestradores, ofereceu-se como refém substituto para que todos os passageiros e tripulação fossem libertados antes de o avião seguir para a Coreia do Norte.
Os sequestradores aceitaram e eles então seguiram, com Yamamura agora como refém, onde se renderam às autoridades norte-coreanas, que ofereceram asilo a todo o grupo.
Shinjiro Yamamura. Imagem: Nikkei.com
O avião que transportava o vice-ministro Yamamura e o restante da tripulação foi liberado dois dias depois e retornou ao Aeroporto de Haneda no dia 5 de abril.
Alguns dos sequestradores ainda residem na Coreia do Norte enquanto outros morreram lá e outros tentaram retornar ao Japão décadas depois e foram presos.
A vida dos sequestradores na Coreia do Norte
Os sequestradores do Yodogo tornaram-se figuras quase míticas, suas vidas em uma das nações mais isoladas do mundo envoltas em segredo e obscurecidas pela propaganda da Guerra Fria.
Eles viveram em um local chamado como “Vila da Revolução“, nos arredores de Pyongyang, que originalmente era uma instalação bastante luxuosa, mesmo para os padrões japoneses, com funcionários e carros caros.
No entanto, isso servia tanto para manter os revolucionários japoneses sob controle quanto para lhes proporcionar conforto material.
Eles chegaram a ter casamentos arranjados com noivas trazidas secretamente do Japão entre 1975 e 1978. Quando as esposas foram descobertas, foram ligadas a uma série de sequestros, falsificação e espionagem.
Os sequestradores do voo 351. (1988 ) Imagem: Jiji Press
Takamaro Tamiya, morreu em 1995 e Kintaro Yoshida morreu em algum momento antes de 1985. Takeshi Okamoto e sua esposa Kimiko Fukudome provavelmente foram mortos tentando fugir da Coreia do Norte.
Em 2004, Takahiro Konishi, Shiro Akagi, Kimihuro Uomoto e Moriaki Wakabayashi fizeram um pedido às autoridades norte-coreanas para que lhes fosse permitido retornar ao Japão, mesmo que fossem punidos pelo sequestro.
Caso retornassem seriam imediatamente presos pelo sequestro e possivelmente também por sua suspeita de envolvimento no sequestro de cidadãos japoneses.
A últimas notícias é de novembro de 2024, quando os sequestradores remanescentes que ainda vivem na Coreia do Norte informaram que suas comunicações com o Japão seriam cortadas por ordens das autoridades norte-coreanas, citando “circunstâncias locais”.
Takaya Shiomi que não participou do sequestro, mas era considerado o suposto mentor do sequestro, foi julgado, condenado e cumpriu quase 20 anos de prisão no Japão.
Em uma entrevista ele disse: “Em 1970, fui condenado a 20 anos e eles fugiram para Pyongyang. Eu os invejei na época, mas talvez eu tenha sido o sortudo. Meu tempo na prisão acabou. Os outros ainda têm tudo o que lhes espera.”
Significado histórico
Mais tarde descobriu-se que as armas e bombas usadas pelos sequestradores no Voo 351 da Japan Airlines eram falsas. Felizmente o incidente terminou sem vítimas fatais, no entanto deixou profundas marcas na sociedade japonesa.
Na época do incidente, a Lei de Punição de Sequestro de Aeronaves e Outros Crimes (Lei Anti-Sequestro) ainda não havia sido promulgada. Esse lei foi promulgada em 18 de maio de 1970.
O sequestro do Yodogo é considerado um marco no terrorismo internacional dos anos 70 e foi um divisor de águas. Em um Japão que buscava consolidar sua imagem de potência econômica pacífica no pós-guerra, o caso revelou tensões internas profundas.
Mais do que um simples ato criminoso, o incidente refletiu as divisões ideológicas de uma geração que via a revolução como única alternativa política. Ao mesmo tempo, mostrou como conflitos globais da Guerra Fria reverberavam no arquipélago japonês.
Décadas depois, o Incidente Yodogo continua sendo estudado por historiadores e analistas de segurança como um marco na história do terrorismo internacional envolvendo cidadãos japoneses.
Esse incidente também inspirou o filme sul-coreano de humor ácido “Good News” (2025), baseado livremente nos eventos do voo 351.
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