O Movimento para Eliminar os Kanji Durante a Restauração Meiji

Durante a Restauração Meiji, o Japão debateu eliminar os kanji para se modernizar. Veja as propostas e o legado desse movimento linguístico.
Durante a Restauração Meiji (1868–1912), o Japão passou por uma transformação sem precedentes. O país abandonava séculos de isolamento feudal para se modernizar rapidamente e se equiparar às potências ocidentais. Nesse turbilhão de mudanças políticas, econômicas e culturais, até mesmo a língua japonesa entrou em debate — e, surpreendentemente, os kanji chegaram a ser vistos como um obstáculo ao progresso.
Um Japão em Busca da Modernidade
Com a queda do xogunato Tokugawa e a restauração do poder imperial, o Japão iniciou uma corrida contra o tempo para se modernizar.
Era preciso reformar o exército, a educação, a indústria e a administração pública. Nesse contexto, intelectuais e reformadores passaram a questionar tudo o que pudesse dificultar o avanço do país — inclusive o sistema de escrita tradicional.
Os kanji, caracteres de origem chinesa usados há mais de mil anos, eram considerados complexos, difíceis de aprender e pouco práticos para uma sociedade que precisava alfabetizar rapidamente sua população.
As Propostas Radicais: Abolir os Kanji

Algumas ideias defendidas na época eram extremamente ousadas:
● Substituir os kanji pelo alfabeto latino (romaji)
● Usar apenas os silabários japoneses (hiragana e katakana)
● Adotar uma língua ocidental, como o inglês, como idioma oficial do Japão
Um dos defensores mais famosos dessas ideias foi o barão e político Maejima Hisoka, que sugeria escrever japonês exclusivamente com o alfabeto latino (rōmaji).
Ele argumentava que os kanji impediam o desenvolvimento educacional e científico do país e acreditava que adotar um sistema de escrita mais simples ajudaria o Japão a se integrar melhor ao mundo moderno e reduzir barreiras culturais.
Resistência Cultural e Identidade Nacional
A discussão não ficou restrita a círculos acadêmicos. Jornais, revistas e debates públicos abordavam o tema com frequência.
O linguista e pensador Futabatei Shimei, por exemplo, defendia uma língua escrita mais próxima da fala cotidiana, criticando o excesso de formalismo herdado do chinês clássico.
Com o mesmo pensamento, Yano Ryukei, escritor e jornalista, defendeu a redução dos kanji de cerca de 80.000 para 3.000 caracteres, alegando que a maioria dos kanji estava obsoleta.
Ao mesmo tempo, educadores tradicionais e estudiosos confucionistas viam os kanji como parte essencial da identidade japonesa, temendo que sua eliminação significasse a perda de séculos de herança cultural.
Além disso, o japonês possui muitos homófonos; sem kanji, o entendimento de textos ficaria mais difícil. Sem contar que abandonar os kanji poderia significar uma submissão cultural excessiva ao Ocidente.
Ou seja, os kanji ofereciam vantagens práticas:
● Ajudavam a diferenciar palavras com a mesma pronúncia (algo comum no japonês).
● Facilitavam a leitura rápida de textos complexos.
Eliminar completamente os kanji poderia causar confusão linguística e empobrecimento cultural.
O Compromisso: Reforma em Vez de Eliminação
No fim, o Japão optou por um caminho intermediário. Em vez de abolir os kanji, promoveu reformas graduais:
● Padronização do número de caracteres usados oficialmente
● Simplificação de traços (kanji simplificados)
● Criação de listas como os Tōyō Kanji e, mais tarde, os Jōyō Kanji
● Fortalecimento do uso de kana em textos populares, literatura e mídia.
● Reformas no ensino da língua japonesa
Essas mudanças tornaram o idioma mais acessível sem romper com a tradição.
Hoje, o sistema de escrita japonês — combinando kanji, hiragana e katakana — é visto como um reflexo da própria história do país: complexa, híbrida e resiliente.
Um Debate que Ecoa Até Hoje
O debate iniciado na era Meiji não desapareceu. Até hoje, surgem discussões sobre a complexidade dos kanji na era digital, especialmente diante do uso crescente de smartphones, entrada por teclado e tradução automática.
Ainda assim, os kanji continuam firmes como um dos pilares da língua japonesa — não como um entrave ao progresso, mas como um símbolo da capacidade do Japão de modernizar-se sem perder sua essência.
Conclusão
O movimento para eliminar os Kanji durante a Restauração Meiji revela um Japão dividido entre tradição e modernidade. Ao optar pela reforma em vez da eliminação, o país encontrou um equilíbrio raro: avançar tecnologicamente sem apagar sua herança cultural.
Mais do que uma curiosidade histórica, esse episódio mostra como a língua pode refletir as escolhas profundas de uma nação sobre quem ela é — e quem deseja se tornar.
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