Japão tecnológico x Japão dos anos 80: 20 coisas que mostram como o país vive em dois tempos ao mesmo tempo

Robôs e inteligência artificial convivem com fax, hanko, formulário de papel, pagamento em dinheiro e CDs. Veja 20 coisas que mostram os dois lados do Japão.
Robôs, inteligência artificial, pagamentos digitais e cidades inteligentes convivem com fax, carimbos, papel, dinheiro vivo e CDs. Conheça 20 exemplos do curioso contraste entre o Japão ultramoderno e o Japão que parece ter parado nos anos 1980.
O Japão costuma ser apresentado ao mundo como um país do futuro.
Trens-bala atravessam o arquipélago em alta velocidade, robôs trabalham em fábricas, lojas utilizam sistemas automatizados, pagamentos podem ser feitos pelo celular e a inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço na economia. Mas existe outro Japão.
Um Japão onde o fax ainda aparece em ambientes profissionais, o hanko continua fazendo parte de determinados procedimentos, documentos podem ser impressos e assinados manualmente e o dinheiro em espécie ainda tem presença importante.
É justamente essa mistura que torna o país tão peculiar.
Em vez de substituir completamente o passado, a modernização japonesa criou uma convivência curiosa entre diferentes gerações de tecnologia. Confira 10 coisas que representam o Japão tecnológico e 10 coisas que representam o Japão analógico e retrô.
10 coisas que mostram o Japão tecnológico
1. Shinkansen: o símbolo da velocidade
Imagem: depositphotos
Poucas imagens representam melhor o Japão tecnológico do que o Shinkansen.
Os trens-bala transformaram a mobilidade entre grandes cidades japonesas e se tornaram referência mundial em transporte ferroviário de alta velocidade.
A tecnologia ferroviária japonesa envolve não apenas velocidade, mas também controle operacional, segurança e precisão. Para muitos visitantes, a experiência de embarcar em um Shinkansen parece uma viagem diretamente para o futuro.
2. Inteligência artificial e Robôs nas fábricas
A indústria japonesa vem incorporando sensores, robótica, inteligência artificial, automação e análise de dados.
A ideia é transformar fábricas tradicionais em ambientes capazes de monitorar processos em tempo real e aumentar a eficiência. Isso faz parte de uma transformação muito maior da indústria japonesa, especialmente diante da redução da população em idade ativa.
Além disso, a robótica é uma das áreas mais associadas ao Japão e não se trata apenas de robôs humanoides apresentados em feiras.
A indústria japonesa possui uma enorme presença de robôs industriais, utilizados principalmente em setores como automóveis, eletrônicos e manufatura.
Segundo a Federação Internacional de Robótica (IFR), havia cerca de 450.500 robôs industriais em operação no Japão em 2024. O país permaneceu naquele ano como o segundo maior mercado mundial de instalação de robôs industriais.
Em 2025, foram instaladas mais 36.219 unidades no mercado japonês.
3. Pagamentos pelo celular

O Japão tradicionalmente ficou conhecido pelo uso intenso de dinheiro vivo.
Porém isso está mudando rapidamente pois cartões, smartphones e pagamentos por código QR tem ganhado cada vez mais espaço no cotidiano japonês.
De acordo com o Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI), a proporção de pagamentos digitais chegou a 58% em 2025, movimentando ¥162,7 trilhões.
O governo estabeleceu como meta chegar a 65% até 2030 e trabalha com uma meta de longo prazo de 80%. Ou seja: o país que ficou famoso pelo dinheiro em espécie está se tornando cada vez mais digital.
4. Cartões IC e transporte inteligente
Imagem: depositphotos
Entrar em uma estação japonesa e simplesmente aproximar um cartão ou smartphone da catraca é uma experiência cotidiana para milhões de pessoas.
Sistemas de cartões IC, como Suica e PASMO, transformaram a maneira de utilizar o transporte público e também são usadas em diversos estabelecimentos comerciais.
É um exemplo de tecnologia que desaparece aos olhos do usuário e traz muita conveniência: basta aproximar o dispositivo e seguir em frente.
5. Konbini: lojas de conveniência altamente automatizadas
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As famosas konbini japonesas são muito mais do que pequenas lojas.
Elas oferecem alimentação, bebidas, serviços financeiros, impressão de documentos, retirada de encomendas, pagamentos e diversos outros serviços.
Algumas utilizam sistemas de autoatendimento e tecnologias de identificação e pagamento.
O resultado é uma experiência comercial extremamente eficiente.
6. Máquinas de venda automática
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As máquinas de venda automática fazem parte da paisagem japonesa.
Bebidas quentes e frias, alimentos e diferentes produtos podem ser encontrados em máquinas espalhadas por cidades e áreas rurais.
Embora a máquina automática não seja uma invenção japonesa, o país desenvolveu uma cultura particularmente forte em torno desse tipo de comércio.
É uma combinação curiosa de automação, conveniência e confiança social.
7. Privadas inteligentes
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As privadas inteligentes no Japão, conhecidas como Washlet (nome comercial criado pela gigante TOTO), são uma das maiores marcas da cultura e da tecnologia do país.
Elas estão presentes em mais de 80% dos lares japoneses e são amplamente encontradas em banheiros públicos, hotéis, trens e aeroportos.
A engenharia por trás desses aparelhos combina pequenos motores elétricos, sensores térmicos e sistemas de filtragem para transformar o ato de ir ao banheiro em uma experiência focada em conforto e higiene absoluta.
Dentre as principais funções estão abrir a tampa automaticamente, assento aquecido, jatos de água ajustáveis (Ducha Higiênica), secador com ar quente, filtros que neutralizam odores instantaneamente e sons artificiais para camuflar qualquer ruído corporal.
8. Serviços públicos digitais
O Japão também está tentando transformar sua própria burocracia. A Digital Agency, criada em 2021, coordena iniciativas para digitalizar serviços públicos e modernizar sistemas governamentais.
Entre os projetos estão identidade digital, serviços administrativos online, padronização de sistemas municipais e utilização de infraestrutura em nuvem. A agência também trabalha para eliminar regras que exigem procedimentos analógicos.
Em setembro de 2026, seu painel registrava o acompanhamento da revisão de aproximadamente 10 mil disposições regulatórias analógicas.
9. Cidades cada vez mais conectadas
Tóquio e outras grandes cidades japonesas combinam redes ferroviárias, sistemas digitais, sensores, telecomunicações e infraestrutura automatizada.
Estação de trem, shopping, supermercado, aeroporto e loja de conveniência podem funcionar como pequenos ecossistemas tecnológicos. O interessante é que muitas vezes a tecnologia não chama atenção. Ela simplesmente está incorporada à rotina das pessoas.
Não podemos deixar de citar também a Woven City, a cidade tecnológica da Toyota, localizada em Susono, na província de Shizuoka, aos pés do Monte Fuji.
Trata-se de uma cidade-laboratório real (um “test course” urbano) projetada para o desenvolvimento e validação de tecnologias de ponta diretamente no cotidiano.
10. Inteligência artificial e automação
O Japão está ampliando o uso de inteligência artificial em diferentes setores. A discussão envolve indústria, administração pública, serviços, pesquisa, educação e cuidados diante do envelhecimento populacional.
Nesse caso, a tecnologia não é apenas uma questão de inovação, ela também aparece como resposta a um problema demográfico: menos trabalhadores disponíveis para atender uma sociedade envelhecida.
A própria Agência Digital japonesa relaciona a digitalização à redução populacional, ao envelhecimento e à necessidade de enfrentar a escassez de mão de obra.
Agora começa o outro Japão…
Se o primeiro Japão parece ter chegado ao futuro, o segundo pode dar a impressão de ter deixado algumas portas abertas para os anos 1980.
Mas é importante fazer uma ressalva: não significa que o Japão inteiro utilize essas práticas da mesma maneira. Elas permanecem principalmente em determinados setores, gerações, empresas, regiões e situações.
10 coisas que fazem o Japão parecer viver nos anos 80
1. O famoso fax
Imagem: depositphotos
Poucas coisas simbolizam melhor o “Japão dos anos 80” do que o aparelho de fax. A fama internacional não surgiu do nada: durante muito tempo, o aparelho permaneceu presente em ambientes empresariais e administrativos japoneses.
Hoje, entretanto, é importante frisar que o Japão está justamente tentando eliminar sistemas que dependem de métodos analógicos.
Apesar do fax ser considerado um símbolo da persistência de processos antigos, a Agência Digital mantém um programa específico para revisar essas regras e procedimentos. Em 2026, o governo continuava atualizando o roteiro de digitalização das administrações.
2. Hanko: o carimbo que substitui a assinatura
Imagem: photo-ac
No Japão, o hanko — também chamado de inkan em determinados contextos — é um pequeno carimbo associado à identidade de uma pessoa ou empresa.
A prática possui raízes muito anteriores aos anos 1980, mas continua sendo uma das imagens mais conhecidas da burocracia japonesa.
Enquanto outros países migraram para assinaturas digitais, o carimbo ainda aparece em determinados procedimentos.
É um excelente exemplo de como uma tecnologia ou prática antiga pode permanecer porque foi incorporada profundamente à cultura administrativa.
3. Formulários de papel
Imagine uma sociedade com inteligência artificial, robôs e pagamentos por smartphone…E ainda assim preenchendo determinados formulários à mão.
Isso pode acontecer no Japão. A persistência do papel está relacionada a procedimentos administrativos antigos, requisitos legais e diferentes níveis de digitalização.
É justamente por isso que a Agência Digital mantém uma política específica para revisar as chamadas “analog regulations” — regras que pressupõem presença física, inspeção visual, treinamento presencial ou documentação em papel.
4. Dinheiro vivo
Imagem: depositphotos
O Japão já foi famoso internacionalmente por ser uma sociedade fortemente baseada em dinheiro em espécie para pagamentos. E isso ainda faz parte da experiência cotidiana no país, embora esteja mudando rapidamente nos últimos anos.
A proporção de pagamentos cashless atingiu 58% em 2025. Isso significa, por outro lado, que uma parcela significativa das transações de consumo ainda não é cashless.
Assim, notas e moedas continuam tendo espaço no cotidiano japonês.
5. CDs continuam relevantes
Imagem: depositphotos
Talvez este seja um dos exemplos mais surpreendentes. Em plena era do Spotify e do streaming, o Japão ainda possui um mercado relevante de música física.
Segundo a Associação da Indústria Fonográfica do Japão (RIAJ), as vendas estimadas de CDs chegaram a ¥168,61 bilhões em 2025.
Isso não significa que os japoneses não utilizem streaming. Muito pelo contrário: o streaming também movimenta valores enormes.
Mas o mercado japonês demonstra que o formato físico não desapareceu completamente. Para quem cresceu nos anos 1980 ou 1990, comprar um CD novo no Japão pode provocar uma verdadeira viagem no tempo.
6. Telefones fixos e comunicação tradicional
Sem dúvidas nenhuma, o smartphone domina a vida moderna japonesa, mas telefones fixos continuam presentes em muitas residências e empresas.
Novamente, não se trata de uma exclusividade japonesa. O que chama atenção é a coexistência de tecnologias de gerações muito diferentes.
Uma casa pode ter internet de alta velocidade, vários smartphones, televisão conectada e, ao mesmo tempo, manter uma linha telefônica tradicional.
7. O estereótipo do “salaryman”
Imagem: depositphotos
Nem tudo que parece “anos 80” é tecnologia.
A cultura corporativa japonesa também carrega elementos de décadas passadas.
O estereótipo do salaryman — o trabalhador de escritório vestido formalmente, deslocando-se de trem e seguindo uma rígida rotina empresarial — nasceu muito antes dos anos 1980, mas tornou-se uma das imagens mais marcantes do Japão corporativo do período.
Embora as empresas estejam mudando, a imagem ainda faz parte do imaginário social japonês.
8. Arquivos, carimbos e cópias
Em determinados escritórios, a digitalização não eliminou todos os arquivos físicos. Documentos podem precisar ser impressos, carimbados, copiados e arquivados.
É exatamente esse tipo de processo que o governo japonês tenta simplificar.
A Agência Digital afirma que a revisão das regulamentações analógicas é necessária para permitir maior utilização de tecnologias digitais e melhorar a produtividade.
9. A força da televisão tradicional
O Japão possui uma indústria televisiva extremamente desenvolvida.
Mesmo com streaming e redes sociais, a televisão convencional continua sendo uma importante fonte de informação e entretenimento.
Programas de variedades, dramas, noticiários e concursos mantêm formatos que podem parecer familiares a quem cresceu assistindo televisão nas décadas de 1980 e 1990.
É o velho modelo de televisão convivendo com YouTube, streaming e redes sociais.
10. A cultura do entretenimento físico
O Japão ainda preserva uma forte cultura de produtos físicos ligados ao entretenimento.
CDs, DVDs, edições especiais, livros, revistas, colecionáveis e produtos relacionados a artistas continuam encontrando público.
A indústria fonográfica japonesa registrou, em 2025, ¥1.686 bilhões em vendas estimadas de CDs, enquanto o mercado total de música — físico e digital — chegou a ¥398,8 bilhões.
É uma combinação curiosa: streaming no smartphone e CD na estante.
Afinal, o Japão é moderno ou atrasado?
A pergunta talvez esteja errada. O Japão não é simplesmente um país “supertecnológico” nem um país “preso ao passado”.
É uma sociedade onde diferentes camadas tecnológicas coexistem. Um trabalhador pode passar o cartão IC no trem, pagar o café com o smartphone, trabalhar em uma fábrica altamente automatizada e, horas depois, precisar carimbar um documento.
Essa aparente contradição é resultado de décadas de desenvolvimento.
Algumas tecnologias antigas continuam porque funcionam. Outras permanecem por causa de normas, costumes ou infraestrutura existente. E algumas simplesmente estão desaparecendo à medida que a digitalização avança.
O próprio governo japonês reconhece esse processo e vem trabalhando para revisar as chamadas regulamentações analógicas. Em setembro de 2026, a Agência Digital informou que seu acompanhamento abrangia aproximadamente 10 mil disposições desse tipo.
O Japão está mudando
Talvez a maior ironia seja que algumas das características usadas para dizer que o Japão “vive nos anos 80” já estão desaparecendo.
O dinheiro vivo está perdendo espaço.
Os serviços públicos estão sendo digitalizados.
O governo está revisando regras analógicas.
Os pagamentos por código estão crescendo.
A inteligência artificial e a automação avançam.
Ao mesmo tempo, o país não abandonou completamente seus hábitos antigos.
E talvez seja justamente isso que torna a experiência japonesa tão fascinante.
O Japão não apagou o passado para construir o futuro.
Ele colocou os dois para funcionar lado a lado.
É justamente aí que está a peculiaridade do Japão: Um país que pode parecer 30 anos à frente em uma situação e 40 anos atrás em outra — às vezes no mesmo quarteirão.
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