Curiosidades sobre a maionese Kewpie, a mais vendida do Japão

A maionese Kewpie é mais do que um condimento no Japão. Conheça a história, a origem e como esse molho se tornou um ícone da culinária japonesa.
Poucos produtos alimentícios conseguem atravessar gerações e se transformar em símbolo cultural. No Japão, a maionese Kewpie ocupa esse lugar singular. Além de ser a maionese mais vendida do Japão, a Maionese Kewpie é também vendida em 79 países.
Criada no início do século XX, ela não apenas redefiniu o paladar japonês, como também se tornou um elemento indispensável da cozinha cotidiana, da comida caseira aos pratos de rua e da alta gastronomia. Em 2025, a maionese Kewpie celebrou um século de história.
A origem: uma ideia importada do Ocidente
A história da Kewpie começa em 1925, quando Toichiro Nakashima fundou a empresa que viria a se tornar a Kewpie Corporation, em Tóquio.
Nakashima havia viajado pelos Estados Unidos e pela Europa, onde conheceu a maionese ocidental, então vista no Japão como um alimento exótico e pouco familiar.
Seu objetivo era adaptar esse molho estrangeiro ao paladar japonês e, ao mesmo tempo, contribuir para a melhoria da nutrição da população, especialmente das crianças, em um período em que o país ainda enfrentava carências alimentares. A maionese, rica em ovos e gordura, parecia uma solução prática e acessível nessa época.
Um sabor diferente: o segredo da Kewpie
Desde o início, a maionese Kewpie se distinguiu das versões europeias e americanas. Em vez de ovos inteiros, a receita utiliza apenas gemas, resultando em uma textura mais cremosa, cor mais intensa e um sabor mais profundo, repleto de umami.
O vinagre também foi ajustado: a Kewpie combina vinagre de arroz, malte e de maçã, criando um perfil levemente adocicado e menos ácido. O segredo do seu viciante sabor umami é uma pitada de glutamato monossódico, que realça o sabor dos ovos.
Esse equilíbrio fez com que o produto se integrasse com naturalidade à culinária japonesa, harmonizando com ingredientes como arroz, peixes, legumes e massas. O resultado foi um molho que parecia estrangeiro na origem, mas genuinamente japonês no sabor.
O nome e o mascote: identidade e marketing
Imagem: Depositphotos
O nome “Kewpie” foi inspirado no popular personagem Kewpie Doll, criado pela ilustradora norte-americana Rose O’Neill, tornando-se uma febre mundial nos anos 1910 e 1920.
A imagem do bebê de olhos grandes e asas pequenas foi escolhida para transmitir pureza, saúde e simpatia — valores que a empresa queria associar ao produto.
O mascote se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis do Japão moderno. Mesmo após 100 anos de existência, o frasco plástico com o bebê Kewpie continua praticamente inalterado, um raro exemplo de design atemporal no mercado alimentício.
Em 1998, a empresa foi processada em 7 milhões de dólares por violação da marca registada por um empresário japonês que dizia ter os direitos do boneco Kewpie no Japão.
A Kewpie Co. se defendeu pois em 1927 adquiriu os direitos exclusivos de fabricação e distribuição das bonecas Kewpie no Japão e em outros mercados asiáticos. Além disso, a personagem Kewpie era de domínio público. Os tribunais deram razão a empresa.
Popularização no pós-guerra
A empresa interrompeu a produção de maionese durante a Segunda Guerra Mundial devido à escassez de abastecimento, tendo retomado a produção em 1948.
Mas durante o pós-guerra ganhou enorme popularidade, em uma época que o Japão passava por uma rápida ocidentalização de hábitos alimentares.
Com o aumento do consumo de pão, saladas e pratos de influência estrangeira, a maionese tornou-se um ingrediente-chave nas cozinhas japonesas.
Ao mesmo tempo, ela passou a ser incorporada a pratos tipicamente locais, como okonomiyaki, takoyaki, yakisoba e saladas de batata (potato salad japonesa), criando combinações que hoje parecem inseparáveis da identidade culinária do país.
Em 1958 foi feito a transição para a embalagem de plástico que conhecemos atualmente, macio e flexível e o bico em formato de estrela para evitar a oxidação (mantendo o sabor fresco por mais tempo) e permitir decorações artísticas em pratos como Okonomiyaki.
Outra curiosidade é que a Kewpie foi certificada pela JAXA como alimento espacial, tendo sido levada por astronautas japoneses para a Estação Espacial Internacional.
A “mayora”: quando a maionese vira paixão
Imagem: Wikimedia Commons
No Japão, existe até um termo popular para os fãs mais devotos da maionese: mayorā (マヨラー), algo como “maionezeiros”.
Para esse grupo, a Kewpie não é apenas um condimento, mas um item essencial, usado generosamente em arroz, ovos fritos, legumes, carnes e até pratos improváveis.
A empresa abraçou esse fenômeno cultural, lançando variações do produto, embalagens com bico fino para desenhos precisos e edições especiais voltadas para consumidores jovens e criativos.
Da comida caseira à alta gastronomia
Com o tempo, a Kewpie ultrapassou o status de produto doméstico e passou a ser valorizada também por chefs profissionais.
Restaurantes de alta gastronomia e cozinhas experimentais passaram a utilizá-la como base para molhos, emulsões e releituras contemporâneas de pratos japoneses e ocidentais.
Hoje, a Kewpie é exportada para dezenas de países e se tornou um item cult entre cozinheiros e entusiastas da culinária japonesa ao redor do mundo.
World Mayo Kitchen
Em 2025, para comemorar o centenário do lançamento da Maionese Kewpie, um evento com food trucks chamado “World Mayo Kitchen” foi realizado em sete cidades do Japão, onde os clientes puderam saborear pratos do todo o mundo com maionese!
Já os Kewpie Mayo Cafés (Pop-up Cafés) são restaurantes temáticos temporários no Japão, principalmente em Tóquio (Shibuya) e Nagoya.
Kewpie Mayo Terrace
A empresa opera um museu em Tóquio chamado Mayo Terrace, uma passeio imperdível para os amantes da marca. Trata-se de uma visita guiada gratuita à fábrica da Kewpie, onde os visitantes podem experimentar comidas com a maionese Kewpie, entre outras atividades!
Ao final do tour, você receberá uma lembrancinha gratuita entre várias opções, há uma miniatura da bonequinha Kewpie, mascote da marca. Há também uma pequena loja de presentes onde você pode comprar produtos alimentícios Kewpie e artigos temáticos.
Além da Mayo Terrace em Tóquio, a Kewpie tem fábrica em Goka (Ibaraki), que oferece visitas guiadas gratuitas à produção de maionese e molhos para salada.
Outras visitas guiadas podem ser feitas na fábrica de Kobe (Hyogo) que conta com um “Mayo Deck” para observação da produção e uma área de experiência gastronômica e a fábrica de Tosu (Saga), em Kyushu que também oferece visitas guiadas.
No entanto, instalações menores adicionais estão localizadas em todo o Japão para dar suporte à distribuição nacional.
Fábricas Kewpie em outros países
Além do Japão, a empresa opera três fábricas na China, localizadas em Pequim, Hangzhou e Guangzhou. Essas fábricas têm capacidade para produzir 72.000 toneladas de maionese por ano, e a Kewpie é a marca dominante em diversas das maiores cidades da China.
O Sudeste Asiático também é um mercado importante. A empresa vende seus produtos nos Estados Unidos desde o início da década de 1990. Ela possui uma fábrica nos EUA que produz maionese sem glutamato monossódico, além de outros molhos para salada e molhos aromatizados. As vendas no exterior representaram cerca de 9% dos negócios em 2019.
Receita caseira da maionese Kewpie
Sendo uma maionese tão icônica, é claro que haveria tentativas de reproduzi-la de forma caseira, ainda mais no Brasil que os preços de uma Kewpie original em lojas de produtos orientais é bastante elevado. Segue abaixo então, receitas da maionese Kewpie:
Um símbolo da adaptação japonesa
Mais do que uma simples maionese, a Kewpie representa uma característica central da cultura japonesa: a capacidade de absorver influências externas e transformá-las em algo único.
Ao adaptar um molho europeu aos sabores locais, a Kewpie ajudou a moldar a cozinha moderna do Japão e se consolidou como um símbolo de conforto, nostalgia e inovação.
Após cem anos após sua criação, a maionese Kewpie continua presente nas mesas japonesas, provando que até um simples molho pode contar uma história profunda sobre identidade, memória e cultura alimentar.
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