Japão permanece entre os países com liberdade de imprensa considerada “problemática”, aponta ranking

O Japão subiu quatro posições, alcançando o 62º lugar no ranking de liberdade de imprensa de 2026, mas permaneceu na categoria “problemática”.
O Japão voltou a registrar um desempenho modesto no mais recente Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026, elaborado pela organização internacional Reporters Without Borders (Repórteres Sem Fronteiras).
O país ficou na 62ª colocação entre 180 países e territórios, obtendo 62,9 pontos, classificação que o mantém na categoria considerada “problemática” pela entidade.
Embora o Japão continue sendo uma das democracias mais consolidadas da Ásia, o relatório aponta que jornalistas ainda enfrentam obstáculos estruturais que dificultam o pleno exercício da profissão.
Entre as principais preocupações estão a influência política sobre a mídia, restrições no acesso à informação governamental, a proteção insuficiente das fontes jornalísticas e um ambiente que favorece a autocensura.
O resultado mostra que, apesar de sua reputação internacional como país democrático e tecnologicamente avançado, o Japão ainda enfrenta desafios importantes para fortalecer a transparência e garantir uma imprensa plenamente independente.
Como funciona o ranking da Repórteres Sem Fronteiras?
Todos os anos, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) publica um levantamento que avalia a situação da liberdade de imprensa em 180 países e territórios.
O índice considera diversos critérios, entre eles:
● Ambiente político;
● Estrutura jurídica;
● Condições econômicas da mídia;
● Contexto sociocultural;
● Segurança dos jornalistas.
Cada país recebe uma pontuação de 0 a 100. Quanto maior a nota, maior é o nível de proteção à liberdade de imprensa.
A classificação é dividida em cinco categorias:
● Boa situação
● Situação satisfatória
● Situação problemática
● Situação difícil
● Situação muito grave
Com 62,9 pontos, o Japão permanece na faixa considerada “problemática”, indicando que, embora a imprensa possa atuar de forma relativamente livre, ainda existem limitações relevantes.
Qual lugar o Brasil ocupa no ranking de liberdade de imprensa?

O Brasil ocupa a 52ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026.
Com este resultado divulgado em abril de 2026, o país subiu 11 posições em relação ao ano anterior (quando estava em 63º) e ultrapassou os Estados Unidos (64º colocação) pela primeira vez na história do índice. Desde 2022, o ganho acumulado do Brasil é de 58 posições.
Assim como acontece com o Japão, o Brasil está classificado tecnicamente na categoria de “situação problemática”, apesar do avanço no ranking.
A influência da Lei de Proteção de Segredos
Um dos principais fatores apontados pela RSF é a Lei de Proteção de Segredos Especialmente Designados, aprovada em 2013 e em vigor desde 2014.
A legislação foi criada para proteger informações relacionadas à segurança nacional, defesa, diplomacia e combate ao terrorismo.
No entanto, organizações de defesa da liberdade de imprensa afirmam que a lei possui definições amplas sobre quais informações podem ser classificadas como sigilosas.
Segundo a RSF, isso cria um ambiente de insegurança para jornalistas, especialmente porque a legislação não oferece mecanismos robustos de proteção às fontes confidenciais.
Na prática, profissionais da imprensa podem evitar determinadas investigações por receio de consequências legais, favorecendo um ambiente de autocensura.
A preocupação com a autocensura
Imagem: Depositphotos
Diferentemente de países onde a censura ocorre de forma explícita, o relatório sugere que, no Japão, o problema está muitas vezes relacionado à autocensura.
Especialistas apontam que jornalistas podem evitar temas considerados sensíveis, especialmente aqueles relacionados à segurança nacional, grandes interesses econômicos ou figuras políticas influentes.
Embora essa postura nem sempre decorra de pressões diretas do governo, a combinação de fatores institucionais e culturais pode reduzir a disposição para reportagens investigativas mais incisivas.
Os clubes de imprensa também são alvo de críticas
Outro aspecto frequentemente mencionado nos relatórios internacionais é o sistema dos chamados kisha clubs, ou clubes de imprensa.
Esses clubes reúnem jornalistas credenciados junto a ministérios, órgãos públicos, empresas e outras instituições.
Os críticos argumentam que esse modelo tende a favorecer grandes veículos tradicionais, dificultando o acesso de jornalistas independentes, mídias digitais e correspondentes estrangeiros a entrevistas coletivas e informações oficiais.
Defensores do sistema afirmam, por outro lado, que ele facilita a comunicação entre autoridades e imprensa e garante um fluxo organizado de informações.
O funcionamento desses clubes continua sendo objeto de debate no Japão.
Questões de gênero também entram na avaliação
A RSF também cita a desigualdade de gênero como um dos desafios da mídia japonesa.
Apesar do aumento gradual da participação feminina no jornalismo, mulheres ainda ocupam uma parcela relativamente pequena dos cargos de liderança em empresas de comunicação.
A organização considera que ampliar a diversidade nas redações pode contribuir para um ambiente jornalístico mais plural e representativo.
Uma queda significativa ao longo das últimas duas décadas
A posição atual do Japão contrasta com seu desempenho no início dos anos 2000.
Quando o ranking foi criado, em 2002, o país ocupava a 28ª posição.
Seu melhor resultado foi registrado em 2010, quando alcançou o 12º lugar.
Entretanto, a partir de 2013, durante o segundo governo do então primeiro-ministro Shinzō Abe, o Japão iniciou um período de queda no índice.
Desde então, o país tem permanecido, em geral, entre a 60ª e a 70ª colocação, sem conseguir recuperar as posições anteriormente ocupadas.
Essa tendência reflete preocupações recorrentes levantadas por organizações internacionais sobre o ambiente da liberdade de imprensa no país.
Noruega mantém liderança mundial

Pelo décimo ano consecutivo, a Noruega permaneceu na primeira colocação do ranking da RSF.
O país é frequentemente citado como referência mundial em transparência, proteção aos jornalistas e independência editorial.
Outros países nórdicos também aparecem entre os primeiros colocados, refletindo uma longa tradição de defesa da liberdade de expressão e do acesso à informação pública.
As três últimas colocações são ocupados pela Eritreia (180º), Coreia do Norte (179º) e China (178º)
EUA registra pior desempenho entre os países do G7
Entre as nações que compõem o G7, os Estados Unidos obtiveram a pior colocação no levantamento de 2026, ficando em 64° lugar.
Segundo a RSF, o retorno de Donald Trump à presidência intensificou um processo de deterioração já observado nos últimos anos.
O relatório cita como fatores preocupantes:
● restrições ao acesso à informação;
● aumento da pressão sobre jornalistas;
● ações judiciais envolvendo veículos de comunicação;
● ataques verbais à imprensa.
A organização afirma que esses elementos contribuíram para um ambiente menos favorável ao exercício do jornalismo.
A situação global preocupa
O relatório de 2026 revela que o cenário mundial da liberdade de imprensa continua se deteriorando.
Segundo a RSF, mais da metade dos países avaliados foi classificada nas categorias “difícil” ou “muito grave”; a média global atingiu seu menor nível desde a criação do índice.
A entidade destaca que diversos governos têm ampliado o uso de legislações relacionadas à segurança nacional para restringir o acesso à informação e limitar o trabalho da imprensa.
Embora essas medidas sejam frequentemente justificadas pela proteção do Estado e da população, organizações de defesa dos direitos humanos alertam que elas podem afetar o direito da sociedade de receber informações de interesse público.
O equilíbrio entre segurança e transparência
O caso japonês ilustra um desafio enfrentado por diversas democracias contemporâneas: como equilibrar a proteção de informações estratégicas com a garantia da liberdade de imprensa.
Enquanto governos defendem instrumentos legais para preservar questões de segurança nacional, entidades internacionais ressaltam que esses mecanismos precisam ser acompanhados de salvaguardas capazes de proteger jornalistas e suas fontes.
Esse debate tornou-se ainda mais relevante em um contexto de crescente circulação de desinformação, ameaças cibernéticas e tensões geopolíticas.
Um desafio permanente para as democracias
A liberdade de imprensa é considerada um dos pilares das sociedades democráticas por permitir a fiscalização do poder público, a circulação de informações e o fortalecimento do debate público.
O desempenho do Japão no ranking de 2026 mostra que, apesar da estabilidade institucional do país, ainda existem desafios relacionados à transparência governamental, ao acesso à informação e às condições de trabalho dos profissionais da imprensa.
Ao mesmo tempo, o relatório evidencia que essas dificuldades não são exclusivas do Japão. Em diferentes regiões do mundo, democracias e regimes autoritários enfrentam discussões semelhantes sobre os limites entre segurança, liberdade de expressão e direito à informação.
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