Sugawara no Michizane e as Ameixeiras: A Lenda da Flor que Seguiu Seu Senhor

Conheça Sugawara no Michizane, o erudito divinizado como Tenjin, e a lenda da Tobi-ume, a ameixeira que simboliza sabedoria e resistência no Japão.
Entre as figuras mais reverenciadas da história japonesa está Sugawara no Michizane (845–903), erudito, poeta e político do período Heian.
Sua trajetória mistura brilhantismo intelectual, intrigas da corte e uma profunda ligação simbólica com as flores de ameixeira — as delicadas baika (梅花).
A relação entre Michizane e as ameixeiras transcende a botânica: tornou-se uma das lendas mais conhecidas da cultura japonesa.
Um gênio da corte Heian
Nascido em uma família de estudiosos, Michizane era um prodígio da era Heian, destacando-se como poeta e acadêmico de literatura chinesa. Seu talento o levou a ocupar cargos elevados na corte imperial de Kyoto, alcançando o posto de “Ministro da Direita”.
No entanto, seu sucesso gerou inveja no poderoso clã Fujiwara, que culminaram em sua acusação injusta de conspiração contra o imperador.
Por causa das rivalidades políticas foi exilado em 901 para Dazaifu (Kyushu), na atual província de Fukuoka — um destino distante e politicamente marginal na época, onde morreu de desgosto dois anos depois, em 903.
Tobi-ume: A lenda da ameixeira que voou
Ameixeira Tobi-ume em Dazaifu Tenmagu (photo-ac)
Antes de deixar Kyoto, Michizane teria composto um poema de despedida para sua ameixeira favorita, plantada em seu jardim.
Segundo a tradição, após sua partida, a árvore ficou “triste” e voou até Dazaifu para acompanhá-lo. Essa ameixeira ficou conhecida como Tobi-ume (“ameixeira voadora”).
Esta árvore lendária, a Tobiume, ainda existe e pode ser visitada no Santuário Dazaifu Tenmangu, santuário erguido em homenagem a Michizane.
De político exilado a divindade
Estátua de Sugawara no Michizane (photo-ac)
Após sua morte, Kyoto foi atingida por desastres terríveis: tempestades severas, raios que atingiram o palácio imperial e mortes súbitas de seus rivais.
Acreditando ser o espírito furioso (Onryo) de Michizane, a corte imperial para acalmá-lo, decidiu reabilitar seu nome e elevá-lo ao status de divindade, sob o título de Tenjin, o deus dos estudos.
Hoje, ele é reverenciado em centenas de santuários Tenmangu por todo o Japão, incluindo o famoso Kitano Tenmangu, em Kyoto.
O Patrono dos Estudantes
Nade-Ushi, estátua de boi de bronze (photo-ac)
Hoje, Michizane é adorado como o protetor dos estudantes. Milhares de jovens visitam santuários dedicados a ele (chamados de Tenmangu) para:
● Comprar Omamori: Amuletos específicos para passar em exames.
● Escrever Ema: Placas de madeira com pedidos de aprovação em vestibulares.
● Acariciar o Nade-Ushi: Estátuas de bois são comuns em seus santuários (pois ele nasceu no ano do Boi).
A tradição dita que você deve esfregar a cabeça do boi e depois a sua própria para ganhar sabedoria, ou esfregar uma parte do boi correspondente a uma parte do seu corpo que esteja doente para buscar a cura.
Como estamos em fevereiro, época de exames e floração das ameixeiras, os santuários Tenmangu estão no auge de sua atividade.
Principais templos associados ao Sugawara no Michizane
1. Dazaifu Tenmangu (Fukuoka)
Santuário Dazaifu Tenmagu, Fukuoka (photo-ac)
Construído sobre o túmulo de Michizane, é considerado o santuário principal.
Destaque: Abriga a lendária Tobi-ume (Ameixeira Voadora), que, segundo o folclore, voou de Kyoto para se juntar a ele no exílio.
Importante: O santuário está em um momento histórico, com o seu pavilhão principal passando por uma grande renovação (conclusão prevista para maio de 2026), mas os visitantes podem apreciar o pavilhão temporário, que possui uma floresta no telhado
2. Kitano Tenmangu (Kyoto)
Kitano Tenmangu, em Kyoto (photo-ac)
Fundado para apaziguar o espírito de Michizane após os desastres que atingiram a capital no século X.
Destaque: É o local do famoso festival Baika-sai (25 de fevereiro), onde Geikos servem chá sob as ameixeiras. Também tem um popular mercado de pulgas.
Atividade: Às sextas-feiras e finais de semana de fevereiro, o jardim de ameixeiras é iluminado à noite, criando um cenário místico.
3. Yushima Tenjin (Tóquio)
Yushima Tenjin, em Tóquio (depositphotos)
O destino número um para estudantes que vivem na capital e buscam aprovação em vestibulares.
Destaque: É famoso pelas suas escadarias de pedra e pela quantidade massiva de Ema (placas de madeira) com pedidos de oração acumulados durante a época de exames (janeiro a março).
Evento: O festival das ameixeiras de Yushima ocorre durante todo o mês de fevereiro de 2026.
Outros Santuários Notáveis:
Osaka Tenmangu: Famoso por realizar o Tenjin Matsuri em julho, um dos três maiores festivais do Japão, com procissões fluviais e fogos de artifício.
Hofū Tenmangu (Yamaguchi): Construído logo após sua morte, é considerado o primeiro santuário Tenmangu fundado no Japão.
A Ameixeira como Símbolo
A ligação entre Michizane e as ameixeiras consolidou o simbolismo da flor de ume como:
● Sabedoria
● Elegância intelectual
● Resistência diante da adversidade
● Lealdade
A ameixeira floresce no fim do inverno, muitas vezes sob o frio intenso — metáfora perfeita para a perseverança do estudioso injustiçado.
Ameixeiras e exames escolares
Ameixeiras em floração no Santuário Dazaifu Tenmangu (photo-ac)
Durante a temporada de floração (fevereiro), milhares de estudantes visitam santuários Tenmangu para pedir sucesso acadêmico.
As flores de ameixeira, chamadas de baika, tornaram-se símbolo de dedicação aos estudos, reforçando a conexão histórica com Michizane.
Michizane como poeta da Baika
Sugawara no Michizane e as Ameixeiras
O próprio Michizane escreveu diversos poemas celebrando a flor de ameixeira. Em sua obra, o ume aparece como expressão de sensibilidade refinada e apego à natureza — valores centrais da estética Heian.
Durante o período Heian, inclusive, o ume era mais celebrado do que a cerejeira (sakura), que só se tornaria símbolo nacional séculos depois.
O Legado Cultural
Hoje, a imagem de Sugawara no Michizane está inseparavelmente ligada às ameixeiras:
● Estátuas do estudioso aparecem ao lado de ramos de ume.
● Selos e amuletos de santuários trazem o desenho da flor.
● Festivais de ameixeira ocorrem em locais associados a Tenjin.
● A baika tornou-se um emblema visual da sabedoria e da superação.
Conclusão
A história de Sugawara no Michizane é uma narrativa de talento, injustiça e reabilitação espiritual. Sua ligação com as ameixeiras transformou a flor de ume em um poderoso símbolo cultural no Japão.
Mais do que uma planta ornamental, a ameixeira representa lealdade, resiliência e a busca pelo conhecimento — valores que continuam vivos em cada pétala que floresce no fim do inverno japonês.
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