Namazu: o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonês

Descubra a lenda do Namazu, o gigantesco peixe-gato que, segundo o folclore japonês, provoca terremotos e é mantido sob controle pelo deus Kashima.

Quando a terra treme no Japão, a explicação científica aponta para o encontro de placas tectônicas que tornam o arquipélago um dos lugares mais sísmicos do planeta. No entanto, muito antes da geologia moderna, os japoneses encontraram uma forma fascinante de explicar esses fenômenos naturais: a existência de um enorme peixe-gato chamado Namazu (鯰).

Segundo o folclore, essa criatura colossal vive nas profundezas da Terra e, sempre que se debate, provoca terremotos devastadores.

A lenda atravessou séculos, inspirou obras de arte, influenciou a cultura popular e continua sendo uma das histórias mais conhecidas da mitologia japonesa.

Neste artigo, conheça a origem da lenda do Namazu, sua relação com o deus Kashima, as famosas gravuras namazu-e e a influência desse mito na cultura japonesa.

O que é o Namazu?

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêImagem: National Diet Library Japan

O Namazu (鯰) é um gigantesco peixe-gato mitológico que habita as profundezas sob o arquipélago japonês.

De acordo com a tradição popular, seu corpo é tão enorme que ocupa boa parte do subsolo do Japão.

Quando permanece imóvel, o país desfruta de tranquilidade. Porém, quando movimenta sua cauda ou seu corpo, toda a terra treme, causando terremotos de diferentes intensidades.

Essa explicação era amplamente aceita antes do desenvolvimento da sismologia moderna.

Antes dele, os terremotos sempre foram associados à movimentos de divindades ou criaturas que moram embaixo das ilhas japonesas, como dragões ou serpentes. Com o passar do tempo, o Namazu foi substituindo essas criaturas e divindades no imaginário popular.

Por que um peixe-gato?

Namazu: o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonês Imagem: National Diet Library Japan

O peixe-gato, conhecido no Brasil como bagre, já era conhecido no Japão por sua sensibilidade às vibrações da água e do solo.

Durante séculos, pescadores observaram que esses animais pareciam agir de maneira incomum antes de tempestades ou mudanças ambientais.

Essas observações acabaram sendo incorporadas ao imaginário popular, transformando o peixe-gato em uma criatura sobrenatural capaz de provocar terremotos.

Embora não exista comprovação científica de que peixes-gato possam prever grandes terremotos, a associação permaneceu viva no folclore.

A lenda de Kashima: o deus que controla o Namazu

namazueImagem: National Diet Library Japan

Na xilogravura acima vemos Deus Kashima prendendo o Namazu, usando a rocha kaname-ishi.

Segundo a tradição, o poderoso deus Takemikazuchi-no-Ōkami, venerado no Santuário Kashima, mantém o Namazu preso utilizando uma enorme pedra sagrada conhecida como Kaname-ishi (要石).

Essa pedra teria a função de imobilizar a cabeça do peixe-gato, impedindo que ele se movesse.

Enquanto Kashima permanece vigilante, o monstro continua sob controle.

Entretanto, quando o deus se distrai ou se ausenta, o Namazu consegue se agitar, fazendo a terra estremecer.

Essa narrativa tornou-se uma das explicações mais populares para os terremotos durante o período Edo (1603–1868).

O Grande Terremoto de Edo e a explosão da lenda

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêImagem: National Diet Library Japan

Em 11 de novembro de 1855, um forte terremoto atingiu Edo, atual Tóquio, causando milhares de mortes e destruindo grande parte da cidade.

Após a tragédia que ficou conhecida como o Grande terremoto Ansei, a figura do Namazu tornou-se extremamente popular.

Artistas produziram centenas de xilogravuras (ukiyo-e) conhecidas como namazu-e (鯰絵), retratando o gigantesco peixe-gato de maneiras variadas e atribuindo a responsabilidade pelo desastre ao bagre gigante.

Essas imagens eram vendidas nas ruas poucos dias após o desastre e rapidamente se espalharam pela cidade.

A popularidade do Namazu-e se deu porque os sobreviventes acreditavam que ao andar como um Namazu-e, estariam protegidos contra outros terremotos.

As curiosas gravuras Namazu-e

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêsImagem: National Diet Library Japan

Esta xilogravura mostra uma espécie de cabo de guerra” entre Namazu e deus Kashima.

Do lado de Kashima, vemos as vítimas do terremoto, enquanto ao lado do bagre gigante, estão aqueles que normalmente lucram com os terremotos (trabalhadores da construção civil, bombeiros, editores de notícias, etc).

As namazu-e não retratavam apenas o peixe como um destruidor.

Em muitas ilustrações, ele aparecia distribuindo riqueza à população.

Isso porque, após um grande terremoto, era necessário reconstruir casas, templos, pontes e estradas.

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêsImagem: National Diet Library Japan

Carpinteiros, pedreiros, artesãos e comerciantes acabavam encontrando mais trabalho, movimentando a economia.

Por esse motivo, algumas gravuras apresentavam o Namazu como um símbolo de renovação econômica. Outras, porém, mostravam o peixe sendo castigado por deuses ou por pessoas revoltadas com os danos provocados.

Namazu também foi usado como forma de satirizar a aristocracia japonesa e por causa disso, dois meses depois, o xogunato Tokugawa, que mantinha um rígido sistema de censura sobre a indústria editorial, proibiu a produção das xilogravuras.

Hoje existem muito poucos originais dessas xilogravuras Namazu-e.

O mês sem deuses

namazueImagem: National Diet Library Japan

Segundo a lenda, o terremoto coincidiu com o “mês sem deuses”, onde se acredita ser um período em que todos os deuses se reúnem em um templo secreto. Aproveitando-se da ausência de Kashima, o covarde Namazu causou destruição e sofrimentos no mundo humano.

Como vimos acima, o único que consegue dominar a fera Namazu é o deus Kashima, usando uma grande rocha conhecida como kaname-ishi (Pedra fundamental).

Porém, certa vez Kashima saiu da cidade, deixando Ebisu (deus da pesca e comércio) no comando. Durante sua vigília, ele acabou dormindo, dando a deixa para Namazu escapar.

As moedas de ouro que caem do céu nesta xilogravura, simbolizam a redistribuição da riqueza durante a fase de reconstrução.

Só não me perguntem porque Raijin, deus do trovão, do lado esquerdo da gravura, está defecando… Será que vem daí o bordão “Tô cagando e andando”?

O significado simbólico do Namazu

Mais do que explicar terremotos, o Namazu passou a representar diversos conceitos.

Entre eles:

● o poder imprevisível da natureza;
● a fragilidade da vida humana;
● a necessidade de reconstrução após desastres;
● a renovação da sociedade;
● a impermanência de todas as coisas.

Esses temas dialogam profundamente com conceitos presentes tanto no budismo quanto na cultura japonesa.

A pedra Kaname-ishi realmente existe?

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêImagem: National Diet Library Japan

Sim. No Santuário Kashima, na província de Ibaraki, existe uma pedra conhecida como Kaname-ishi (要石), tradicionalmente associada à lenda.

Segundo a crença, apenas uma pequena parte da pedra é visível na superfície.

Sua maior porção permaneceria enterrada profundamente, prendendo o Namazu.

Há também outra pedra semelhante no Santuário Katori, alimentando diferentes versões da tradição.

Embora sejam objetos religiosos e não científicos, ambas continuam sendo importantes símbolos culturais.

O Namazu na arte japonesa

Durante o período Edo, artistas representaram o Namazu em inúmeros estilos.

Ele podia aparecer:

● gigantesco e assustador;
● com características humanas;
● usando roupas tradicionais;
● cercado por deuses;
● sendo perseguido por moradores;
● distribuindo moedas de ouro.

Essas gravuras misturavam humor, crítica social e crenças religiosas, tornando-se um importante registro histórico da época.

A visão científica

Hoje sabe-se que os terremotos japoneses são provocados pelo movimento das placas tectônicas.

O Japão está localizado no encontro de quatro grandes placas:

● Pacífica;
● Filipina;
● Eurasiática;
● Norte-Americana.

Essa posição geológica explica a elevada frequência de terremotos no arquipélago.

Apesar disso, a lenda do Namazu continua sendo valorizada como patrimônio cultural e expressão da criatividade popular diante de fenômenos naturais difíceis de compreender no passado.

Curiosidades

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêsImagem: National Diet Library Japan

A xilogravura acima mostra Namazu sendo atacado pelos cidadãos do Período Edo, depois do Grande Terremoto Ansei.

O caractere 鯰 significa literalmente “peixe-gato”.

As gravuras namazu-e tornaram-se extremamente populares após o terremoto de Edo, em 1855.

Algumas ilustrações retratam o Namazu como um herói que redistribui riqueza por meio da reconstrução da cidade.

A pedra Kaname-ishi pode ser visitada até hoje no Santuário Kashima.

O Namazu é uma das criaturas mais conhecidas do folclore japonês relacionadas a desastres naturais.

O legado do Namazu

Esta xilogravura mostra Namazu sendo atacado pelos cidadãos do Período Edo, depois do Grande Terremoto Ansei.Imagem: National Diet Library Japan

Mesmo em um país altamente desenvolvido e referência mundial em engenharia antissísmica, a figura do Namazu continua despertando fascínio.

Ela representa a maneira como as antigas sociedades procuravam explicar forças da natureza que escapavam à compreensão humana. Ao mesmo tempo, recorda que terremotos fazem parte da história do Japão e influenciaram profundamente sua cultura, arquitetura, religião e modo de vida.

Mais do que um simples monstro mitológico, o Namazu tornou-se um símbolo da relação dos japoneses com a imprevisibilidade da natureza e da capacidade de reconstrução diante das adversidades.

Conclusão

Namazu, o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonêsImagem: National Diet Library Japan

A lenda do Namazu atravessou gerações e permanece como uma das histórias mais emblemáticas do folclore japonês.

Ao atribuir os terremotos aos movimentos de um gigantesco peixe-gato aprisionado sob a terra, os antigos japoneses criaram uma narrativa que unia imaginação, religiosidade e observação do mundo natural.

Embora a ciência tenha revelado as verdadeiras causas dos terremotos, o Namazu continua vivo na arte, na literatura, nos santuários e na cultura popular.

Sua história lembra que, mesmo diante das forças imprevisíveis da natureza, o povo japonês sempre encontrou maneiras de transformar medo em aprendizado, tradição e resiliência.

Imagens usadas no artigo fazem parte da National Diet Library Japan

* Artigo originalmente publicado em 4 de setembro de 2012
Última publicação em 28 de julho de 2026

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Sou apaixonada pelo Japão e sua cultura. Resolvi criar esse blog com o intuito de fazer com que mais e mais pessoas conheçam essa cultura tão rica, incrível e fascinante!

7 thoughts on “Namazu: o gigantesco peixe-gato que provoca terremotos segundo o folclore japonês

  1. Muito interessante as xilogravuras, achei até engraçado o Namazu tomando a apunhalada e a culpa que ele sempre ganha!
    Acho muito bonitas essas xilogravuras do Japão(apesar de achar os desenhos de pessoas um pouquinho feio), gosto muito das cores que são usadas.
    Mudando de assunto, para aprender Japonês utilizei o curso da NHK e depois comprei livros.

    Livros:
    “Japonês para o dia-a-dia”(tem umas 130 páginas, sendo umas 110 de frases prontas)
    “Japonês guia de conversação para viagens”(bastante útil para algumas frases)
    “Japonês em quadrinhos vol.1 e Japonês em quadrinhos caderno de exercícios”(chegaram ontem aqui em casa, to gostando bastante para aprender a lê e compreender melhor).

    Até agora são esses livros que utilizo, gosto de lê todo dia o “Japonês para o dia-a-dia”, para ganhar mais vocabulário e não esquecer o que sei, irei aproveitar esse feriado para estudar muito. Geralmente quando estou estudando deixo o pc com algum canal japonês aberto para escutar, vejo tv japonesa atravês do KeyHole TV(programinha com canais e rádios japoneses ao vivo).
    Já falei muito, abraços!

  2. Oi Douglas!
    Obrigada por compartilhar conosco os livros e os métodos que utiliza para aprender japonês! Em breve quero elaborar algo à respeito desse assunto, colocando maneiras práticas e fáceis para aprender nihongo. Esse curso de japonês da NHK, parece ser muito bom. Não sei se já viu, mas a Suriemu publicou um artigo muito bom falando sobre esse curso, além de muitas dicas úteis para quem está estudando japonês. Vale a pena conferir! Abraços e obrigada mais uma vez pelas dicas!

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