O Monte Osore e a fascinante crença japonesa na vida após a morte

Monte Osore é um dos locais mais sagrados e misteriosos do Japão. Para muitos japoneses o local representa a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Poucos lugares no Japão despertam tanto fascínio quanto o Monte Osore (恐山, Osorezan), cujo nome significa literalmente “Montanha do Medo”.
Situado na Península de Shimokita, na província de Aomori, o local é considerado um dos três montes mais sagrados do país e, para muitos japoneses, representa a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos ou a porta de entrada para o submundo (o inferno e o paraíso).
A paisagem é diferente de qualquer outro destino turístico japonês com uma atmosfera única e sombria, moldada por uma forte atividade. Rochas vulcânicas, solo esbranquiçado, fumarolas de enxofre e um forte odor sulfuroso criam uma atmosfera quase sobrenatural.
Em contraste com esse cenário árido, surge o impressionante Lago Usori (宇曽利湖), cujas águas azul-esverdeadas parecem pertencer a outro mundo. Este lago é incapaz de sustentar qualquer tipo de vida, pois suas águas são altamente tóxicas.
Essa combinação entre beleza natural e simbolismo religioso faz do Monte Osore um dos destinos espirituais mais importantes do Japão.
Onde fica o Monte Osore?
O Monte Osore está localizado na cidade de Mutsu, na Península de Shimokita, extremo norte da ilha de Honshu.
A região é relativamente isolada, cercada por montanhas, florestas e pelo Oceano Pacífico, o que contribui para a atmosfera de silêncio e contemplação que caracteriza o local.
Durante grande parte do inverno, o acesso fica limitado devido às fortes nevascas que atingem a região.
O significado do nome “Osore”
A palavra Osore (恐れ) pode ser traduzida como “medo”, “temor” ou “reverência”.
Já Osorezan (恐山) significa literalmente “Monte do Medo”.
O nome não está relacionado apenas ao aspecto assustador da paisagem, mas também ao profundo respeito espiritual que o local inspira há séculos.
Um dos montes mais sagrados do Japão
Memorial em homenagem às vítimas do Grande Terremoto do Leste do Japão no Templo Osorezan Bodaiji. Imagem: photo-ac
O Monte Osore faz parte dos chamados Três Grandes Lugares Sagrados do Japão, ao lado do:
Monte Kōya (Wakayama);
Monte Hiei (Kyoto/Shiga).
Enquanto o Monte Kōya simboliza a prática budista e o Monte Hiei representa o estudo religioso, o Monte Osore é tradicionalmente associado à passagem das almas após a morte.
A fundação por Ennin
Segundo a tradição, o templo principal do Monte Osore foi fundado no século IX pelo monge budista Ennin (794–864), também conhecido como Jikaku Daishi.
Conta-se que Ennin recebeu a missão de encontrar um local semelhante ao inferno budista descrito nas escrituras.
Após uma longa peregrinação pelo norte do Japão, encontrou uma paisagem vulcânica que correspondia à descrição espiritual, estabelecendo ali o templo Bodaiji, pertencente à escola Tendai do budismo.
A paisagem que lembra o além
Imagem: photo-ac
O ambiente do Monte Osore impressiona imediatamente.
O solo é formado por rochas vulcânicas claras, fumaças constantes emergem do subsolo e o cheiro de enxofre domina o ar. Diversos riachos de águas quentes atravessam a região.
Para os antigos budistas, essa paisagem lembrava as descrições do submundo presentes nos textos religiosos.
Por isso, o local passou a simbolizar a jornada da alma após a morte.
Dentro do complexo religioso existem pequenos banhos termais gratuitos.
Segundo a tradição, as águas possuem propriedades purificadoras tanto para o corpo quanto para o espírito. Após caminharem pela área vulcânica, muitos peregrinos utilizam essas fontes para concluir sua visita.
O Rio Sanzu: O “Leito Seco do Rio das Almas”
Imagem: photo-ac
Outro elemento importante da tradição é o Rio Sanzu (Sanzu no Kawa). Na crença budista japonesa, todas as almas precisam atravessar esse rio após a morte. Uma pequena ponte existente no Monte Osore simboliza essa travessia espiritual.
Entre as almas que tentam atravessar o rio estão as almas de crianças mortas e bebês que ainda não nasceram, que vão empilhando pedras ao longo do leito do rio (Sai no Kawara) na tentativa de chegar ao outro lado, no caso o Paraíso.
É por isso que às margens do rio podemos encontrar uma infinidade de estátuas de Jizo e pedras e seixos empilhados no leito.
Elas são amparadas por Jizo, um popular Bodhisattva do budismo japonês, que protege as almas de demônios malignos, que constantemente tentam destruir os montes de pedras e tentam impedir a passagem das almas.
Os Jizō e as homenagens às crianças
Espalhadas por toda a montanha encontram-se centenas de pequenas estátuas de Jizō Bosatsu, considerado o protetor das crianças, dos viajantes e das almas.
Muitas delas estão cobertas com gorros vermelhos, babadores, brinquedos e cata-ventos coloridos. Essas oferendas são deixadas por famílias que perderam filhos, especialmente bebês e crianças pequenas.
Os cata-ventos girando ao vento produzem um dos cenários mais emocionantes do Monte Osore. Muitos visitantes atravessam a ponte em silêncio, como forma de homenagem aos entes queridos que já partiram.
O Lago Usori: um contraste surpreendente
Imagem: photo-ac
Em meio ao cenário quase lunar encontra-se o Lago Usori. Suas águas apresentam um intenso tom azul-turquesa devido aos minerais presentes na região vulcânica.
Às vezes o azul se mistura com o amarelo, devido ao seu alto teor de enxofre e outras substâncias tóxicas. O contraste entre o lago cristalino e o ambiente árido reforça o caráter místico do Monte Osore.
Apesar da aparência paradisíaca, a elevada acidez da água impede a sobrevivência da maioria das espécies aquáticas. Vale lembrar que a água do Lago Usori é considerada altamente venenosa e portanto não deve ser ingerida em hipótese nenhuma.
O cheiro terrível de ovo podre que há no local é em decorrência de enxofre e outros gases causados pela atividade vulcânica.
Porque este local se tornou sagrado no Japão?
Existe uma crença budista de que os mortos fazem a travessia sete dias após sua morte em caminho ao paraíso.
Por isso existe uma tradicional cerimônia especial após uma semana do funeral, onde os familiares e amigos rezam para que o morto tenha uma travessia bem sucedida para o outro lado da vida após a morte.
Mas porque acredita-se que este local representa o inferno e o paraíso segundo a visão budista? O Lago Usori está no centro com 8 montanhas ao seu redor.
Desta forma, o local representa uma flor de lótus de oito pétalas e o Amida Butsu que significa “Buddha da Luz e Vida Infinitas”, segundo o Budismo.
Na sua área central há 108 lagoas de água fervente e lama, que correspondem aos 108 desejos mundanos e os infernos ligados a cada um deles.
Lado a lado com as lagoas infernais da região vulcânica, o lago Usori rodeado por uma areia branca apresenta um cenário maravilhoso, o que sugere a beleza da Paraíso.
O Festival Osorezan Taisai
Todos os anos, entre 20 e 24 de julho, ocorre o Osorezan Taisai (Grande Festival do Monte Osore), principal festival religioso da montanha.
Durante o evento:
● milhares de peregrinos visitam o templo;
● monges realizam cerimônias budistas;
● familiares prestam homenagens aos falecidos;
● algumas Itako realizam sessões espirituais.
É o período de maior movimento do ano.
As Médiuns Cegas (Itako)
O Monte Osore também é famoso pelas Itako (イタコ), mulheres cegas que atuam como médiuns espirituais.
Durante o festival anual, elas realizam o ritual conhecido como Kuchiyose, no qual afirmam estabelecer comunicação entre os vivos e os espíritos dos mortos.
Muitos clientes ficam esperando horas em filas para serem atendidos pela Itako. Os clientes das Itako são em sua maioria pessoas que perderam um ente querido e desejam se comunicar com eles através das médiuns.
Essas mulheres possuem uma extensa formação espiritual e geralmente tem mais de 80 anos.
A fim de se comunicarem com os mortos, elas realizam rituais de purificação por três meses antes do evento e assim conseguem entrar em um transe espiritual profundo durante o festival e assim conseguem “conversar” com os mortos.
Depois que a médium entrega a mensagem do ente querido que se encontra no mundo espiritual, ela recebe seu pagamento (o serviço é cobrado) e o cliente vai embora geralmente satisfeito por ter recebido notícias do além.
Embora muitos japoneses enxerguem essa prática como parte do folclore e da tradição cultural, outros acreditam genuinamente em seu significado espiritual.
Hoje, o número de Itako diminuiu significativamente, restando menos de 20 médiuns vivas em todo o Japão, tornando essa tradição cada vez mais rara.
Dentre esse pequeno grupo, estimativas de pesquisadores e antropólogos apontam que existem apenas menos de 6 praticantes ativas na província de Aomori que ainda realizam regularmente o ritual do Kuchiyose (chamamento dos mortos).
Melhor época para visitar o Monte Osore

A melhor época para visitação é entre 1 de maio e 31 de outubro, quando o clima é mais agradável. O acesso ao monte custa 500 ienes e inclui o direito de usar as águas termais medicinais (onsen) localizadas dentro do terreno do templo.
Outra atração interessante em Osorezan é o Osorezan Aki Mairi (Culto do Outono no Monte Osore), realizado anualmente entre 08 e 10 outubro.
Este evento de cunho religioso é realizado com o objetivo de pedir por boas colheitas, prosperidade, sorte e também pela saúde e segurança das famílias que visitam o local.
No local, os visitantes também terão a oportunidade de banhar-se em suas caldeiras de águas termais, na qual dizem ser terapêutico, apesar do cheiro.
Para chegar no Monte Osore através de transporte público, ônibus a cada 3 horas circulam entre a Estação Shimokita, o Terminal Rodoviário de Mutsu e Osorezan.
A viagem de ida da estação até Osorezan leva 45 minutos e custa 810 ienes. Não há ônibus de novembro a abril, período em que o Templo Bodaiji está fechado.
Turismo e respeito
Embora seja um importante destino turístico, o Monte Osore continua sendo um local de intensa atividade religiosa.
Os visitantes são orientados a:
● manter silêncio em áreas de oração;
● não retirar pedras ou objetos do local;
● respeitar cerimônias religiosas;
● evitar fotografar pessoas durante momentos de oração sem autorização.
Esse respeito faz parte da experiência de conhecer um dos lugares mais sagrados do Japão.
Curiosidades
● A temperatura do solo pode ser bastante elevada próximo às fumarolas.
● O cheiro intenso de enxofre pode ser percebido antes mesmo da chegada ao templo.
● Apesar da aparência inóspita, a região abriga uma rica biodiversidade nas áreas florestais ao redor.
● O Monte Osore é frequentemente comparado ao Monte Hakkoda e ao Vale do Inferno de Noboribetsu por suas características vulcânicas, embora tenha um significado religioso muito mais profundo.
● Muitos japoneses consideram a visita ao Monte Osore uma experiência de reflexão sobre a vida, a morte e a impermanência.
Um cenário presente na cultura popular
O Monte Osore aparece frequentemente em animes, mangás, documentários, programas de televisão e livros sobre espiritualidade japonesa.
Sua atmosfera única inspira histórias relacionadas ao sobrenatural, à vida após a morte e ao folclore japonês.
Um lugar onde natureza e espiritualidade se encontram
O Monte Osore é muito mais do que um vulcão ou um destino turístico. É um espaço onde geologia, religião, história e tradição se unem para criar uma das paisagens mais simbólicas do Japão.
O cheiro de enxofre, a paisagem acinzentada e carbonizada, as bolhas de vapor de água quente que saem do subsolo, as águas tóxicas do lago Usori, as estátuas Jizo espalhadas nas margens do rio, o silêncio misterioso que só é quebrado pelos corvos que sobrevoam a área, os mistérios sobrenaturais, os espíritos, tornam este local único no Japão.
Para alguns visitantes, é um local de contemplação. Para outros, uma oportunidade de homenagear familiares que partiram. E para muitos, representa um lembrete da filosofia japonesa de que vida e morte fazem parte de um mesmo ciclo.
Independentemente das crenças de cada pessoa, caminhar pelo Monte Osore é uma experiência marcante. Entre vapores vulcânicos, estátuas de Jizō, cata-ventos coloridos e o silêncio das montanhas de Aomori, o visitante encontra um dos lugares mais misteriosos e espiritualmente significativos do Japão.
Lembrando que a Província de Aomori há muitos locais interessantes para se visitar como por exemplo o Túmulo de Jesus Cristo. Se ainda não viu, não deixe de conferir!
Informações sobre Monte Osore
Endereço: Ohata, Mutsu, Aomori 039-4401, Japão
Site Oficial: https://reijyo-osorezan.jp/
Fonte: Japan Guide, aomori-tourism.com
Imagem do topo: photo-ac
* Artigo originalmente publicado em 25 de julho de 2013
Última atualização em 28 de junho de 2026
Muito bom os post!
Já fazia um tempo que tinha curiosidade sobre o Ozore-san e as Itako, desde que vi referências numa parte do mangá Shaman King.
Tenho muita vontade de visitar, pela beleza e importância do lugar. Também porque gosto muito de terror japonês e deve-se ouvir muitas lendas interessantes por lá!
Seria legal ver um post com alguns lugares cabulosos do Japão!
Abraço !
Oi Rodrigo!
Que bom que gostou da matéria sobre o Monte Osore! Quanto à sua sugestão sobre lugares cabulosos do Japão já marquei aqui e em breve postarei algo nesse sentido! Abraços!
Senacional, muito interessante
Oi Reginia!
Que bom que gostou de saber mais curiosidades sobre esse lugar tão fascinante! Até! Abraços!
amor japão. mais poderia fazer um documentário sobre a kadokan ser tver pode manda o link
Japão em foco, amo suas informações, sou do Rio de Janeiro e estou no Japão com minha família!!! Tenho visto muitas cerejeira s!!!!
É um lugar lindo, digno de cartão postal. Achei interessante as médiuns se prepararem tanto pra falaram com os espíritos, prq aqui no Brasil, nossos espíritas levam menos tempo e tem alguns que a comunicação é quase instantânea. Não desmerecendo o trabalho delas, claro, e se não cobrassem iriam pagar suas contas como?
Nossa, adorei. Estou vendo a série A Lenda do Nove Caudas e é falado sobre um rio e A Senhora do Samdocheon, não sei se escreve assim. Até pensei em Izanami, mas creio não ser a mesma, visto que a série mistura as lendas com fantasia. Artigo maravilhoso! Obrigada! Gostaria de saber mais sobre divindades, kitsunes. Muito bom! Obrigada!